Cultura de Direitos Feminismo

Carta para Jobson…

Por Dandara Vital

Antes de mais nada quero deixar claro que tudo que vou escrever neste texto tem a ver com minhas vivências enquanto travesti nas artes, e não tenho nenhum interesse em ser representante de toda uma classe, mas sou sim uma travesti atriz que tenho minhas ideologias, que podem ser ou não iguais as ideologias de outras travestis ou pessoas transexuais, cada corpo suas marcas, vivências e cicatrizes.

Eu me lembro que quando começou o “bum” dos trabalhos acadêmicos sobre travestilidade e transexualidade, nós pessoas trans aceitávamos participar, entendendo aquilo como uma honra, um privilégio, uma classe deixada tão de lado, tão abandonada, e nossas demandas sendo estudadas por profissionais formandos, havia uma luz no fim do túnel. Mas, com o tempo fomos percebendo que não passávamos de objeto de estudo, cobaias, ou uma pauta interessante a ser abordada, ou de repente até inovadora, nada mais do que isso. Éramos sugadas e não ganhávamos nada em troca. E assim acontece com a arte, e vamos citar a novela “A força do querer”, onde existe um personagem que é homem trans, e uma personagem bem confusa que ora é travesti, ora é transformista, ora é gay, mas não vou entrar neste mérito e muito menos no mérito do trabalhos da atriz Carol Duarte e do ator Silvéro Pereira (que é uma pessoa que conheço pessoalmente e tenho uma admiração muito grande), mas é importante deixar claro que os dois atores são pessoas cis. E na época, eu estive pessoalmente com a Gloria Perez que é a autora da trama, e quando a questionei do porque não darem oportunidade para pessoas trans interpretarem suas próprias histórias, a mesma colocou um monte de objeções, entre elas, Gloria me disse que não conhecia atores homens trans e eu falei pra ela que existem sim, e ela não fez questão de conhecê-los, e também me disse coisa do tipo que o homem trans não ia querer se vestir com roupas femininas, de repente mostrar o “seio”, e mais uma vez me propus a apresentar homens trans atores e ela perguntar diretamente se eles topavam ou não, para assim ela ter uma certeza e não ficar no achismo, e ela mais uma vez não fez questão de conhecê-los. Também foi dito que queriam mostrar uma transformação, e nós sabemos que a equipe de maquiagem e de efeitos especiais da Globo faz o que quer com qualquer pessoa, exceto pessoas trans né?! Também foi dito pela própria Glória Perez que não é porque ela esta escrevendo um personagem, não lembro se era psicopáta ou serial killer, que ela tinha que colocar um pra fazer. Não vou comentar sobre esta infeliz comparação, mas preciso dizer que a gente luta pela representatividade, pois somos proibidos de interpretar pessoas cis, então ao menos nos deixe interpretar pessoas trans, e quando falamos de representatividade não falamos apenas de colocar uma pessoa trans, mas sim de uma classe que vem lutando, mesmo diante de todas as dificuldades que passamos, como por exemplo, o uso do nome social, questionamento quanto a uso de banheiro, até mesmo nos pronomes de tratamento, e outras transfobia que a maioria das pessoas trans sofrem em escolas, cursos, faculdades, inclusive de teatro, para nos capacitarmos, ou seja, falamos de atrizes travestis e atores e atrizes transexuais formades. E tenho orgulho de citar alguns, para que não aja dúvida de que estamos falando de profissionais capacitados: Renata Carvalho, Gabriela Loran, Léo Moreira Sá, Leona Johvs, Lua Guerreiro, Barbara Aires, Maite Schneider, Bernardo de Assis, entre muites outres! E é claro que vou citar a Maria Clara Spinelli, que por sinal vem fazendo um trabalho incrível na novela, mas é importante deixar claro que ela é uma exceção, pois a arte nos exclui, e conforme fui percebendo isso, fui vendo a necessidade de criar os meus próprios projetos, de forma independente, sem financiamento, na garra e na coragem, resistindo, para que eu pudesse me manter viva como atriz, mas desde 2008, que foi quando comecei a estudar teatro, nunca consegui me dedicar exclusivamente a isso, sempre tendo um emprego formal para o meu sustento. E é importante também dizer, que a luta pela representatividade é uma luta de verdade, queremos nosso espaço, então quando não fazemos o que o Cistema quer, somos excluídes, esta é uma verdade nua e crua. È importante as pessoas trans e travestis entenderem isso, que por mais que a pessoa não seja ligada a arte, precisamos lutar juntes, e assim a gente da arte também lutar por quem quer ser médica, administrador de empresa ou qualquer outra profissão, pois somente com união iremos conquistar verdadeiramente nosso espaço.

Mas quando falamos de personagens trans na novela, existe um deslumbre pela visibilidade, o que não estou aqui querendo dizer que a visibilidade não é importante, definitivamente não é isso, o que eu quero dizer é: se existe a visibilidade porque também não usamos este momento para lutar pelos nossos direitos, pela ocupação dos espaços?

Eu me lembro perfeitamente de um dia que tive a oportunidade de participar de uma reunião com grandes militantes trans aqui do Rio de Janeiro, foi para fazer o levantamento de assassinatos de pessoas trans, o que mostrou que o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. A reunião era com uma ONG internacional, e eles perguntaram o que poderiam fazer para melhorar as nossas vidas, algumas propostas foram dadas, e eles questionaram a bancada evangélica, famosa mundialmente por tirarem nossos direitos, e uma militante respondeu, mais ou menos assim, dizendo que por conta da nossa invisibilidade, não éramos tão atacados por eles, que os gays cis eram mais. O que eu quero dizer com isso é que com a visibilidade hoje somos uma realidade, e passamos a ser uma ameaça, e quando a gente conquista sofridamente algo, eles se unem para nos derrubar.

Eu espero de coração que tão logo caia a ficha das pessoas trans quanto a visibilidade. A visibilidade não pode andar sozinha, precisamos tirar proveito disso também, porque eles estão sugando nossas vidas e na grande maioria das vezes não dão nada em troca.

E por último, mas não menos importante, precisamos falar da NetFlix, que apesar de ainda terem poucos personagens trans, mas vem dando oportunidades para estarmos representando as nossas próprias histórias, isso é um fato histórico.

E mesmo lendo este texto e muitos outros sobre representatividade trans na arte, inclusive com depoimento de pessoas trans, você ainda tem a opinião de que o ator é livre para viver o que quiser, eu deixo a seguinte reflexão: qual ator é livre? Quando os atores e atrizes trans vão ter as mesmas oportunidades dos atores cis?

Aproveito também para convida-los a conhecer o Manifesto REPRESENTATIVIDADE TRANS JÁ acessando o link https://www.facebook.com/RepresentatividadeTrans/


Foto: Arquivo pessoal
Dandara Vital
Ao longo de seus nove anos de atuação nos palcos, Dandara Vital mantém a decisão de sublinhar a manutenção da travestilidade  no corpo, como forma de preservação, resistência e diferenciação do seu trabalho de atriz – memória, estratégia e sobrevivência.
Natural de Niterói-RJ, iniciou sua formação artística em curso ministrado por Celina Sodré num projeto chamado “Damas em Cena”. Dandara Vital é atriz do Studio Stanislavski desde 2008.e atuou nas peças “TransTchecov”, “O vazio das molduras e dos espelhos”, “Os fantasmas de guerra e paz”, “A pedra de Suelí”, “Prática de Montação”, “Mulheres de Tebas”, no média metragem “Ou isso ou aquilo”, no curta metragem “1º de julho” e foi assistente de direção de Fabio Porchat no espetáculo “Ninguém leu guerra e paz”.
Em sua trajetória, recebeu o prêmio na categoria Melhor Atriz de 2011 no “Troféu Claudia Celeste, promovido pela Astra Rio e Superintendência de Direitos Individuais Coletivos e Difusos da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Atualmente se dedica ao espetáculo autobiográfico “Dandara através do espelho”.
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