Cultura de Direitos Feminismo

Carta para Jobson… Andréa Brazil, a dignidade de uma história real!

Militância Travesti , por Andréa Brazil (Atual Presidente da
Astra Rio Associação de Travestis e Pessoas Transexuais do RJ).
Em Meados de 2004 à 2006, eu Andréa Brazil (Nome usado apenas em momentos de
Performances Artísticas em festas e Eventos),nada muito profissional, afinal só me
produzia de forma Feminina nessas ocasiões, me considerando até então Gay e
Transformista, descubro minha TRAVESTILIDADE em dado momento,que ao colocar um
Mega Hair (implante de Cabelos),por uma queda de cabelos causada por químicas
incompatíveis e falta de profissionalismo de uma colega, “ENXERGUEI” como era minha
essência feminina ao me ver de cabelos longos. Sequer imaginava o quê era “Ativismo e
Militância” no auge de meus 27 anos (pasmem!). Em uma Visita a Boite Casa Grande
(local de diversão direcionado à travestis em sua grande maioria em Bangu/RJ). Tenho o
grande privilégio de assistir a um “Show” da incrível Figura Hanna Suzart, (protagonista
e criadora da ASTRA RIO e PROJETO DAMAS),nunca  imaginaria que ao final do Show
Hanna Viria a Anunciar que a Prefeitura (Sob comando de César Maia,então prefeito)
protagonizaria o quê viria a ser o primeiro “Projeto Visando Inclusão de Travestis e Transexuais”.
Naquele momento, Hanna convidou a todas as presentes a se inscreverem pois era uma oportunidade ùnica .Aquilo ficou na minha cabeça, seria possível?

Travestis não dependerem única e exclusivamente de “Prostituição e Ruas”?  Precisar se disfarçar para conseguir um “EMPREGO FORMAL?”,com carteira assinada? Paguei pra ver…o convite feito na Noite de Sábado na “Diversão” ,se tornou minha Meta de novos caminhos na segunda – feira seguinte,entrando como uma das ultimas da primeira turma de cerca de vinte   inscritas, aleguei que nem na “Prostituição” eu via caminhos para poder ser aceita (sendo que nem fazia programas,era apenas uma cabeleireira local em início de carreira no bairro,uma outra forma de poder ser quem era…gay,transformista,e logo em breve TRAVESTI).
Ainda era tudo muito novo,ainda apresentava resistência em me vestir de forma 100%
feminina (Precisava de disfarces,pouca maquiagem,não tinha formas muito
femininas,era magra e reta,nem sonhava em me “Hormonizar” (isso por volta de 2006).Ter amigas Travestis, eu tinha, convivia com elas mas tinha medo de hormônios e
silicones, e achava que a “Montação” resolvia. Ledo engano,ao conviver com nomes
como Luana Muniz,Majorie Marchi…o aprendizado de ativismo ,militância e guerra de
egos veio a jato! …seguidamente a admiração imediata por Hanna Suzart começou a
mudar algo dentro de mim. Achava o máximo aquela Travesti ,com seus fartos cabelos
loiros e terninhos femininos ministrando um curso de preparo para ingresso no
mercado de trabalho, mesmo sendo “UMA TRAVESTI”.

Como já disse,como gay, eu já tinha tido experiências de carteira assinada,até como atendente de Telemarketing e Recepcionista do museu do Telefone,sendo gay,era mais “fácil” mesmo sofrendo “PERSEGUIÇÕES” em ambiente de trabalho.

Imaginem? TRAVESTI CONTRATADA?

Era um sonho… segui esse sonho. Sempre encantada com Hanna, tentava aprender mais com ela, andar com ela pelas ruas do Centro do Rio,prestar atenção em como ela enfrentava os preconceitos e piadinhas,e cada dia a admiração aumentando.

Eu Fui uma das últimas a entrar na primeira turma,e algumas “palestras” achava enfadonha e fúteis, sem adequação ao que era o “MERCADO de TRABALHO”, principalmente para uma Travesti/Transexual (muito preconceito!) .

O projeto consistia em 3 meses de Preparo Diversificado (Direitos,Leis Trabalhistas,como também montar um currículo,como se vestir para “Ambientes de Trabalho”,”Ética”,”Postura” e etc…
Posteriormente,estágio em alguns setores da Prefeitura, com possível contratação ao
final desse Período). Percebia algumas falhas, mas eu ficava na minha. Pois quem era
“EU”,perto de Hanna Suzart?

Alguns Palestrantes cometeram gafes, falando de figurinos de “Show” ou para prostituição… senti pavor!!!

Aguentei calada e segui adiante. Certa ocasião, fomos eu e seis  Travestis com Hanna ao Detran para possibilidade de encaixe como estagiárias. Fomos Todas Recepcionadas por um rapaz e eu pensei: Vai vir merda aí!

Dito e feito, ao sermos encaminhadas para uma senhora responsável pelo setor, a
pergunta feita : QUAL BANHEIRO VOCÊS VÃO USAR???

Quis Jogar ele do prédio.

Senti repulsa…

Senti muito temor, e juntas todas nos negamos a estagiar naquele setor o qual fomos. Naira, coordenadora da Prefeitura na época, se encarregou de nos direcionar para estágios em outros setores, que talvez lidassem com mais humanidade, fomos então para o Teatro ,eu lembro de ter sido inserida como Camareira, para ajudar nas vestes e perucas das Atrizes(conheci Lucinha Lins,Claudio Lins na Ópera do Malandro em cartaz nessa época).

Logo em seguida,outra humilhação e decepção,tentaram me designar para limpar refletores.
Era uma certa “discriminação”, e falta de aproveitamento de Currículo.

Pedi pra ser transferida, e pedi uma oportunidade de ser melhor aproveitada. Pois tinha segundo grau, atual ensino médio.
Possuía o Técnico em Assistente de Administração, fui aproveitada em um setor administrativo, ao lado de Hanna e equipe (Não lembro o Local). Ia Cada Vez mais Aprendendo com Hanna, postura e profissionalismo ( e até me vestir melhor).

Passei a ter coragem de usar saia longa, muito louco isso,muito orgulho disso!
Então ,assistindo um noticiário da tarde, vi um espaço com cursos diversos de
qualificação profissional para geração de renda urgente chamado Obra Social, da
Prefeitura do RJ, aquilo me gerou uma Curiosidade em perguntar a Coordenadora Naira
(Da Prefeitura) de quê se tratava aquele espaço. Ela (Naira Explicou que eram o xodó
da Prefeitura,as Casas de Capacitação que davam cursos e geravam renda).

Não sei o que me ocorreu ,perguntei a Naira:NÃO POSSO DAR AULA LÁ NÃO? ( Afinal era Cabeleireira),com um dom extra que descobri depois,que era ensinar…

Antes de encerrar o período de Estágio,estava sendo a primeira contratada a prestar serviços dentro da Prefeitura comoTravesti Instrutora de Cabeleireiros para Obra Social da Prefeitura,recebi a primeira turma como teste e passei 4 anos sendo sempre recontratada para várias unidades no Rio de Janeiro.

Me afastei um pouco da Militância Direta.

Ensinar e falar em Sala de Aula sobre, ser uma “Professora” Trans para turmas de mais de 30 alunos de diversas idades e orientações sexuais, religiosas,mães de família que queriam ter uma profissão e apresentar pra elas que ERA POSSÍVEL, ser profissional formal e Travesti.

Nesse  tempo soube do falecimento de Hanna ,e alguns anos depois,fiquei sabendo que Majorie Marchi, havia tomado as rédeas do Grupo ASTRA RIO (Fundado por Hanna). lembro que houve um conflito de egos, entre Majorie e minha Indicação antes de todas dessa primeira turma.

Fui convidada a falar, sobre minha contratação para inspirar as colegas , e Majorie falou algumas coisinhas pesadas (o tempo iria nos unir de Novo…quem diria).

Tempos Depois,Me filiei ao PV,depois de ter dado aulas em várias comunidades do Rio de Janeiro, Bonsucesso, Realengo, Campo Grande, Copacabana e finalmente em Botafogo,ao lado da Sede do Governo da Prefeitura.

Achei que era meu apogeu, pois já era “Instrutora de todas as turmas da Unidade.

Sentia um enorme orgulho de onde tinha chegado.

Ao ser candidata a Vereadora pelo Município pelo PV, Majorie me reencontrou e me
questionou tal “ambição” e desdenhou,mas ao final começou a me apoiar quando
Gabeira e Eduardo Paes Disputaram segundo turno da eleição municipal.

Apareci em Campanhas do Gabeira, em horário político.
Infelizmente Gabeira perdeu e eu saí do Projeto Obra Social, que foi encerrado pela
posse de Eduardo Paes.

Mas Majorie e eu nos aproximamos e ela começou a me cobrar a o que era Militância Real, o que era Ativismo, quais eram as questõesTRANS…

Me fez ver que tudo que eu fazia ainda era pouco.

Logo em seguida, vieram Governo de Sérgio Cabral e a Convocação de uma Conferência Estadual de Políticas Públicas LGBTTS, sendo seguida logo após, uma Convocatória Nacional solicitada pelo Governo Federa.

Participei da Estadual, ao lado de Majorie, Weluma e a Astra, passa a ser regulamentada e reconhecida com sua nova presidência e diretorias.
Eu cada vez mais impressionada com direitos e lutas, seguindo junto a Astra. Sendo
uma das diretoras/tesoureira, após a regulamentação oficial da instituição, conheci na
Conferência pessoas Super Pioneiras em Militância e Ativismo, e Majorie e Weluma cada
dia me inserindo mais e na base da porrada (literalmente). Falava-se sobre o direito a União Estável Civil, direitos de uso de nome social (Hanna foi pioneira, mas o uso dela ainda fora colocar o nome feminino, em meio ao nome de registro,uma vitória pra época).  Na Conferência Estadual,realizada no Maracanãzinho, fui ativa,participativa e em dado momento, Majorie fez uma fala que via em mim a futura Presidente da ASTRA Rio de Janeiro,eu emocionada me engajei cada dia mais e estando presente em diversas ações da ASTRA RIO, mesmo sem recursos e com pouco tempo pois voltara a
ser Cabeleireira de Bairro.

O tempo passou, mesmo sendo uma das diretoras , acompanhava só de longe e pela Internet, as ações da ASTRA RIO, e Majorie Marchi.

Senti um pouco de decepção ao ver um certo “Culto a Beleza
Trans”.

As ações da Astra, já não me contemplavam mais.

Mas entendia o “Gancho” que Majorie buscava, que era o fator beleza Trans.

Isso atraía mídia positiva, mas não concordava dentro de mim.

Mantinha amizade por Rede Social, mas não era informada de mais nada, mas não deixava de parabenizar por ações quando achava louvável ,algumas vezes Majorie, até dava uma curtida ou um “ok” para alguma postagem em minha página sobre, Ativismo e Respeito ás Questões Trans.

Nem parecia que ainda compunha a ATA e ESTATUTO de Formação da Nova ASTRA. Em 2013 consegui um contrato como Instrutora de Cabeleireiros pela Rede Faetec, Governo Estadual. Diante da Perspectiva de sustento e recomeço, segui minha vida e voltei a “Militância Solitária”, em Internet e Redes Sociais.

Quando soube do falecimento de Welluma Brown (Chacrete), nossa Vice Presidente e um tempo depois,o choque da notícia do falecimento de Majorie.

Choque!

Impressão que ela seria imortal.
Nenhuma noticia, por mais algum tempo sobre a Situação da ASTRA.

Denise Taynáh, continuava (continua) no Governo do Estado mas sem dar nenhuma notícia sobre ASTRA RIO. Até que finalmente algo chega a mim, algumas amigas preocupadas com a situação da Instituição,começam a me procurar e fico sabendo que a
documentação,antes em poder dos Familiares de Majorie, encontravam-se agora em
poder de Denise, que solicita sua saída da diretoria. Diante de tais fatos, volto a manter
uma aproximação com Indianara Alves Siqueira.

Dona de Salão, nos outros horários livres, volto a me integrar na Militância graças aos
estímulos de Indianara, (que agora como Vereadora Suplente e Mantenedora da Casa
Abrigo Nem que acolhe Travestis e Transexuais em Situação de Vulnerabilidade
Social,percebo que é um novo chamado. Me oriento com advogada Maria Eduarda
Aguiar,e outros nomes da Militância como Jovana Cardoso, Amanda Ribeiro (ainda
diretora da ultima formação da ASTRA RIO documentada,como eu).

Percebemos algumas arbitrariedades, em uma Convocatória de Assembléia Geral,nos reorganizamos e montamos Nova Chapa e Convocamos Assembléia Geral e Nova Formação de Diretoria da Instituição ASTRA RIO e que agora, concretizada e reorganizada, passo a ser Presidente eleita em chapa Única junto de grandes nomes da Militância de Travestis e Transexuais. Passo a compor o Fórum Estadual De Travestis e Transexuais.

Com Apoio de Bruna G. Benevides,me integro a Rede Antra que acompanha diretamente os crimes de “Transfobia” em nosso país, articulamos estratégias e ações de inserção, e políticas públicas de respeito à nossos direitos como nome social, políticas de saúde pública e respeito a condições peculiares da classe TT, como também continuamos a luta pelos espaços de empregabilidade para que a condição de prostituição, não seja nosso único recurso, e todas as questões inerentes ao direito de cidadania e direitos iguais e
plenos.

Não mais uma visão “marginalizada” nem tão somente “Passabilidade e padrões
de Higienização e Beleza”, como único requisitos para VISIBILIDADE TRANS.

Hoje percebo que a união de “Todes” que nos torna mais fortes ,como as parcerias entre Casa Nem, Grupo Pela Vida ,Transrevolução e ASTRA RIO.

Deixo agradecimentos, ao Fórum TT RJ,ANTRA ASSOCIAÇÃO NACIONAL de TRAVESTIS E TRANSEXUAIS, e em especial Indianara Siqueira (Vereadora Suplente PSOL),Bruna G Benevides (Presidente Conselho LGBT,Niterói), Jovana Cardoso ativista e atual diretora ASTRA Rio de Janeiro, Maria Eduarda Aguiar (Advogada e Ativista Trans), Angela Leclery que é artista, ativista,cantora e diretora ASTRA Rio de Janeiro.

 

Andréa Brazil
Presidente em Exercício

ASTRA RIO (ASSOCIAÇÃO DE TRAVESTIS E PESSOAS
TRANSEXUAIS DO RIO DE JANEIRO).

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