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"Cadê a tal Revolução?"

Por Marcio Sales Saraiva
Rejeitado pela maioria em todas as pesquisas de opinião, por que o povo não sai às ruas (greve geral, insurreição, guerrilha) e derruba Michel Temer e o capitalismo?
Uma coisa é governo, outra coisa é o sistema socioeconômico e seu arcabouço jurídico-político. Essa é uma primeira questão.
Tenho meditado no que o cientista político Adam Przeworski apontou como lacuna no marxismo clássico: falta uma teoria explicativa da motivação revolucionária. Não é simples.
Em sociedades complexas — Gramsci chamou de sociedades ocidentais — o que levaria os indivíduos (ainda que agregados em classes sociais) trocarem o governo que tem hoje (por pior que seja!) pela reconstrução do Estado com todos os riscos inerentes à empreitada? Marx dizia, no “Manifesto Comunista”, que os trabalhadores nada tinham a perder senão seus grilhões. Será mesmo?
Há diversas hipóteses que tentam explicar esse tipo radical de mudança social. Nenhuma delas, sozinha, parece dar conta do real que vivemos nas sociedades de mercado (Ocidente) do século 21. Vejamos algumas propostas explicativas:
1) Quanto pior, melhor para a revolução. Não é nova esta tese, mas historicamente, como alertava Marx, quanto mais ferrado se está, menor é o desejo revolucionário e maior a probabilidade de se vender por qualquer prato de comida. Não parece que o desastre social conduz à mudança social, pelo menos, não no sentido almejado pelos socialistas. A miopia cognitiva aqui reina, pois a barriga ronca.
2) A educação muda. É uma tese intuitiva. De fato, pessoas bem educadas e com boa renda tendem a engajar-se mais na defesa de seus direitos e apoiar com maior vigor processos de mudança social que possam gerar ganhos futuros. Veja a força da classe média e de sindicatos como bancários e metalúrgicos. Também é exemplar, nesse sentido, a atuação dos sindicatos na construção e na defesa do Estado de Bem-Estar Social nos países desenvolvidos. Por outro lado, essa suposta força transformador dos mais bem educados foi usada para aumentar seus ganhos imediatos, dentro de uma economia capitalista, sem ruptura da ordem. Em outras palavras, esses setores esclarecidos da sociedade se tornaram conservadores em relação às propostas mais revolucionárias. Pelo visto, tinham muito a perder. Preferiram o capitalismo, mesmo com suas falhas.
3) O problema é de condução. Aqui a revolução não acontece por incompetência da vanguarda (partido, movimento) que deveria conduzi-la. As pessoas seriam motivadas exteriormente, por um processo de convencimento. Se a vanguarda falha, as pessoas não compreendem, não há motivação, a revolução não acontece. É uma tese problemática. Sua fundamentação é elitista. A condução é pelo alto. A consciência pertence à uma minoria, é exportada, e os demais são levados como rebanho. Ainda que as multidões possam se comportar, em alguns momentos históricos, como massas de manobra, a atual configuração social mais em rede, horizontal e informacional, no mínimo, relativiza essa tese.
4) O problema é estrutural. A unidade entre estruturas ideológicas de dominação (que supostamente mantém as pessoas apáticas e desinteressadas) e estruturas econômicas de exploração e poder (capturando as instituições políticas-jurídicas), faz da mudança social algo impossível. As classes dominantes tem tamanho controle (jurídico, eleitoral, midiático, moral, consciências) que resta apenas uma resmungação resignada aos socialistas com breves e pontuais momentos de alegria (como uma greve que saiu vitoriosa ou uma prefeiturazinha do interior que foi conquistada com sangue, suor e lágrimas). É desesperador um mundo sem mudanças profundas. Fukuyama é uma versão liberal — e até o momento triunfante! — desse pessimismo de esquerda.
Seja como for, as mudanças sociais continuam acontecendo, mesmo depois da queda do socialismo real – regimes comandados por partidos comunistas. A diferença é que tais mudanças são aperfeiçoamentos ou recuos dentro da sociedade de mercado e respeitando-se procedimentos democráticos formais. Esquerda, centro e direita atuam dentro destes marcadores. Os extremismos (contra o mercado e a democracia eleitoral) são minoritários no mundo.
É óbvio que há muito mais que isso. A discussão é enorme. Estou apenas pontuando algumas coisas, de maneira muito resumida e simplória. Mas estou convencido que este tema merece tratamento profundo e sério. Quem se habilita?
MARCIO SALES SARAIVA, 44 anos, é cientista político e candidato ao Círculo Brasileiro de Psicanálise/RJ.
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