O problema de toda pessoa que estudou Rádio e TV como graduação é que no fundo, nos auto-denominamos críticos de programas de televisão. Eu me permito assistir a todos os programas ruins das programações, e dou como desculpa o fato de eu ser uma estudiosa do entretenimento, mesmo sem estar mais na área televisiva há alguns anos. A diferença entre mim e as outras pessoas é que eu assumo assistir a todos os programas horríveis da televisão. E mais, e assisto a quase todos os realities shows da TV aberta e fechada. Quase todos os anos eu tenho que prometer para mim mesma que não assistirei Big Brother Brasil, entre outras promessas horríveis que só quem consome esse produto após às 22h pode assumir.

Um dia eu resolvi visitar a saudosa MTV, para ver no que ela havia se tornado, e descobri que sua programação é formada por 98% de realities shows (número baseado em chutômetro agregado, rs). Tem reality sobre mães jovens, reality de namoro, tem todos esses tipos de programas, a maioria produzidos internacionalmente ou copiados da MTV gringa. Me apeguei primeiro em um tal de Are You The One Brasil. Na época, comecei a assistir e vi que todos os programas da MTV incentivam a mesma coisa: Inferioridade e sexualização feminina, disputa entre mulheres, superioridade masculina, sexo livre para homens, casais lésbicos sexualizados e sexo oprimido para mulheres. O que me deixa mais brava é que eu me identifico com as “personagens” que são chamadas de vaca, de galinha. Aliás, as mulheres que transam em reality shows são as mais mal faladas, as odiadas e cada vez mais existe um incentivo à disputa entre mulheres, como citei anteriormente. Homem transa a vontade, pode fazer sexo grupal. Mulher fica bebendo, é sexualizada, é ridicularizada bêbada, exposta como escandalosa e louca.

Eu fiquei pensando que se algum dia, algum reality show me acompanhasse com as minhas amigas em outras épocas de juventude, o que as pessoas pensariam sobre nós? Aliás, nós nunca nos importamos que os outros pudessem nos julgar. Só que a liberdade sexual é um marco para as mulheres, quando as pílulas contraceptivas libertaram as mulheres para o mundo, lá em torno da década de 60. Estamos em 2018 e ainda temos pessoas que julgam as mulheres, com quem elas dormem ou deixam de dormir. Quando na verdade, nossos corpos, nossas regras, mais que ser uma frase chavão sobre interrupção de gravidez, quer dizer que podemos transar com quem a gente bem quiser, onde a gente bem quiser e do jeito que a gente bem quiser.

Aí passo para a atual temporada de Are You The One Brasil. As mulheres se uniram para discutir o direito a fala e o direito ao próprio corpo. Um participante foi expulso por ser violento, violência gerada em decorrência de uma discussão dita como boba, onde ele chamou uma garota de “piriguete”, porque ela beijou dois garotos. Depois, esse mesmo cara expulso, começou a xingar uma outra garota xis do jogo de vagabunda, como se ridicularizar uma mulher fosse a melhor forma de defesa, e depois, veio a violência física.

Na grande irmã e dona da porra toda (sic) Rede Globo, estamos com o BBB18 no ar, que terá sua final amanhã. Surgiram piadinhas na internet sobre a participante Jessica, que foi eliminada há quase uma semana. Vi mais de um meme brincando com o fato de que ela seria eliminada e aconselhando as namoradas e esposas a cuidarem dos seus pares porque ela viria para o mundo real. Oi? Para quem não assiste BBB, ela se envolveu num caso amoroso com um cara xis que era noivo, que saiu do BBB no início do programa e que assumiu tê-la masturbado. A mesma Jessica, na sua eliminação, lacrou, e disse que nunca nem tinha ouvido falar do tal cara que era noivo, fazendo mais uma piada e mostrando que nós, mulheres, podemos sim ser fortes e que na verdade, comprometido era o cara. 

Enfim, esse texto, cheio de histórias que talvez alguns de vocês não conheçam e outros assumam lá no fundo que, assim como eu, assistam a todos esses programas inúteis, mas enquanto a mídia não defender a igualdade de decisão entre homens e mulheres, especialmente no trato sexual, continuaremos com tabus idiotas como “grupos de risco de HIV”, “mulheres pra casar”, entre outras coisas. A mídia precisa começar a comprar a imagem da mulher moderna e independente, sem que ela dependa de um macho pra fazê-la feliz, porque senão, pro resto da vida, nossos filhos serão criados como heróis, nossas filhas como princesas, e sexualidades serão tabus para quem não estiver dentro desses estereótipos.

 

EDIT: Deixei de fora temas como #gordofobia. Um dia falaremos sobre esses padrões…

 

Mariana Perin

A louca dos Buldogues Franceses, Yawo de Oya, feminista, dividindo seu tempo entre política e produção cultural.

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