Por Luccas Cechetto

Quando recebi a tarefa de escrever sobre e ateísmo e sustentabilidade em uma edição cujo tema disparador era religião e sustentabilidade fiquei bastante relutante. Não por achar que não há relação entre os temas, mas porque há uma concepção agressiva de ateísmo, muito alimentada por aqueles/as que se colocam numa verdadeira cruzada contra as religiões, desde os que se restringem a provocações nas redes sociais até aqueles que investem todo seu tempo e recursos em defender que religiões são a raiz de todo o mal, como é o caso  alguns intelectuais ateístas famosos. Esta empreitada é problemática por várias razões, a principal sendo a implicação de uma tentativa de invalidação e anulação de uma manifestação legítima da complexidade humana e dos recursos desenvolvidos para lidar com a montanha-russa que é viver. No entanto, ainda que seja possível e necessário estabelecer uma relação respeitosa com as diversidades religiosas, existe, de fato, uma incompatibilidade entre o que um ateísmo não agressivo pode pautar e a leitura que fazemos das manifestações religiosas/espirituais. O que não é um problema, uma vez que é justamente a partir dessa e de outras divergências que o debate pode avançar e a compreensão desses fenômenos pode ser aprofundada, diferentemente do que costuma acontecer.

O movimento das áreas do saber que estudam a religião (teologia, filosofia da religião, ciências da religião, psicologia da religião, etc) frequentemente caminha na direção de tentar legitimar e universalizar a religiosidade (colocando inclusive o ateísmo como manifestação religiosa) como fenômeno inerente do ser humano.  Uma consequência frequente disso, na minha leitura, é acabar por reduzir o ser humano a uma de suas diversas expressões, alienando-o a uma premissa essencialista transcendental (há algo em nossa essência que é mais que humano, que transcende nossa matéria e dá algum sentido a nossa existência) e fechando o leque para a necessidade de se questionar criticamente as verdades oferecidas por essas visões de mundo, assim como de se pensar explicações alternativas para as experiências humanas. Acaba, também, por negar ao indivíduo ou por deslegitimar o direito de ser algo que não religioso ou transcendental.

O ateísmo, por outro lado, partiria do princípio de que não há a necessidade de uma busca por sentido; de uma transcendência para se ser humano. De fato, para o ateísmo, ser humano reside em ser e não, na busca do ser. Isto não implica, no entanto, em abrir mão de morais e valores, ou de ser imediatista e individualista, como os “críticos” de plantão fazem questão de afirmar. Pelo contrário, ser para um ser humano exige ser coletivamente, ou seja, ser com o outro e a partir do outro. Isto irá, invariavelmente, demandar uma série de regras e dispositivos de organização e de controle para que tal convivência com o outro seja possível. Regras estas que devem ser construídas com o outro e a partir do outro, sem que isso implique na existência de uma essência que transcenda estas relações, tampouco que se engessem em algum sentido que vise, dentre outras coisas, sanar o medo do vazio existencial, este resultante da constatação de nossas limitações e de nossa finitude. Mais ainda, o ateísmo deve tentar romper com o paradigma frustrador de que sempre há algo melhor e mais perfeito que deve ser buscado, admirado e adorado. Deve tentar devolver ao ser humano a sua condição de SER humano, ao invés de ser transcendente ou ser divino.

A preocupação do ateísmo, portanto, não deve ser de invalidar ou considerar manifestações religiosas como ingenuidade, burrice ou fantasia, mas sim, de colocar as contradições dessas expressões na mesa, se propor a debatê-las e a buscar investigar a função desses comportamentos e seus efeitos, aceitando a necessidade que pode emergir de criticá-las e, inclusive, de debater a superação quando se observar que o efeito coletivo é mais prejudicial do que benéfico. Não é possível fazer esse diálogo sem levar em consideração, por exemplo, a frequência com que as ideologias religiosas não só norteiam nossos modos atuais de nos relacionarmos uns com os outros, como também podem reproduzir e reatualizar a violência do Capital e, em se tratando das hegemônicas, inclusive são pilares constituintes desse modo opressor de vida no qual estamos inseridos.

Não se trata de, por conta disso, defender uma “extinção” das religiões ou de se lançar na luta contra a religião, por apontar – corretamente – o rastro de sangue e de práticas moralistas e violentas que acompanham a história das religiões, especialmente as monoteístas e patriarcais. Por outro lado, não se pode cair no discurso da religião customizada, individualista em essência, da qual se retiram apenas as regras e trechos que são convenientes a uma maneira já encaminhada de ver o mundo e falar que a religião institucional não expressa a espiritualidade contemplada nessas customizações. Isso também é invalidar as manifestações religiosas, na tentativa de negar que mesmo as versões personalizadas tem relação direta com essas versões mais violentas. A prática individualizada não só impede o enfrentamento da violência institucional das religiões, como impede a necessária autocrítica e avanço de debate sobre as manifestações religiosas e seus efeitos na construção individual e coletiva das identidades e de práticas culturais.

Neste ponto há grande convergência entre o debate sobre sustentabilidade e religiosidade. Da mesma maneira que a religiosidade customizada mascara a violência e trava o debate, o “ecocapitalismo sustentável” faz o mesmo em seu discurso. A “sustentabilidade” da bicicleta, do apagar a luz e diminuir o tempo no chuveiro, por exemplo, promovida pelo discurso capitalista “verde” dá a falsa sensação de que ao fazer isso não só se está fazendo o necessário para impedir o esgotamento de recursos desenfreado praticado pelo capitalismo, como distancia o indivíduo da coletividade, ainda que venda, de maneira reducionista, que isso é para o benefício de todos. É muito simplista defender práticas individuais sustentáveis – como o uso da bicicleta ou do ônibus, o não consumo de carne ou a redução doméstica do consumo de água (atitudes que, certamente, trarão mais benefícios que prejuízos) – e ignorar a necessidade de se fazer recortes sobre, primeiro, a viabilidade de execução dessas práticas para quem, por exemplo, mora na região metropolitana e vai de moto para o trabalho porque acaba sendo muito mais econômico (em tempo ou dinheiro) que utilizar o transporte coletivo ou uma bicicleta e, segundo, do como essas práticas são vazias sem a discussão da transformação radical das condições objetivas e materiais das vidas das pessoas, o que só é possível em um sistema que não o capitalismo. É também simplista defender que a religiosidade ou espiritualidade é única a cada um (como se descolada da história em que surge, se desenvolve e se mantém) e pender para o discurso utilitarista do “me faz bem”, mais uma vez impedindo o estabelecimento do debate, já que impede o aprofundamento sobre questões tais como o que seriam essas manifestações individuais, suas funções e efeitos; o que é esse bem-estar que causam e; é possível colocar esse bem-estar individual acima do coletivo, deixando de lado discussões importantes, pois isso implicaria em desrespeitar a manifestação religiosa/espiritual de cada um?

O seguimento de regras individualizadoras, que mais servem para aliviar nossos desconfortos com a violência diária que enfrentamos, sempre implicará em exclusão, invalidação e impedimento de avanço em debates e críticas necessárias. Não há, portanto, como tais discursos e práticas relacionadas serem sustentáveis se elas não confrontam diretamente e buscam revolucionar o sistema que consome recursos e vidas em larga e rápida escala. A prerrogativa adotada pelo ateísmo que reivindico – de questionamento e elucidação das contradições, pretendendo superá-las quando se percebem incoerências ou prejuízos para o coletivo – é necessária para que possamos ampliar nosso conhecimento sobre os mecanismos de controle colocados em prática pelo capitalismo ou reatualizados nele, seja no discurso religioso, seja no discurso de sustentabilidade (e em tantos outros) e confrontá-los, almejando uma sociedade cada vez mais coletiva, comunitária e solidária.

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