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"Acerolas, Leituras e Respeito"

Por: Felipe Storch

Pensar no que significa sustentabilidade para mim requer primeiro uma volta na minha infância, quando eu comecei a pensar no ‘eu sustentável’. Mais ou menos na época em que nasci, minha mãe plantou um pé de acerola no quintal de nossa casa, em Rio Branco (AC). Foi da minha interação com esse pé de acerola que surgiu meu entendimento de sustentabilidade.

Vendi acerolas dessa aceroleira para um comerciante local e assim descobri, sem saber, minha paixão pela economia e a ecologia. Se a época do ano era de escassez de acerola e as pessoas continuavam a querer o mesmo tanto de acerola, eu aumentava o preço por quilo. Por outro lado, se as acerolas estavam pequenas e ao mesmo tempo eu encontrasse poucos ‘algodõezinhos’ nas raízes da árvore, suspeitava que havia ali alguma relação diminuindo minha produtividade. Em aula de economia e ciência ambiental na Phillips Academy Andover muitos anos depois, aprendi que o primeiro exemplo era uma aplicação das leis de demanda e oferta do mercado local e o segundo referia-se a baixa fixação de nitrogênio pelas raízes da planta.

Ser sustentável para mim é, primeiro, a construção de uma relação reflexiva com os sujeitos humanos ou não humanos e o processo de distinção entre desejos e necessidades (wants vs. needs). Esse último processo se aperfeiçoa com interações, seja com uma árvore, um animal, outro sujeito. Tendo descoberto minha paixão pela economia, outras interações reflexivas começaram. Mas nem tudo na minha vida fica em torno de acerolas, gente. Ainda que meu ponto de partida foi meu pezinho de acerola, para ser sustentável tento fazer três práticas.

O primeiro é de não aceitar as coisas do jeito que elas são, o status quo. Da minha lista de pensadores não-conformistas, recomendo Amory B. Lovins (energia renovável), Chico Mendes (movimento rural extrativista), Elinor Ostrom (governança econômica), Vandana Shiva (alimentos orgânicos), Herman Daly e Ricardo Abramovay (economia verde), Marina Silva (proteção florestal), Al Gore e Bill Mckibben (mudanças climáticas), Rachel Carson (biomagnificação pesticídica), Eduardo Giannetti (desenvolvimento econômico), Mahatma Gandhi (equidade social), Wangari Maathai (Movimento Cinturão Verde) e Achim Steiner (diplomacia ambiental).

Os 14 nomes citados não têm muito em comum a não ser que compartilham um viés progressista, uns mais que os outros. O não-conformismo de cada um desses propulsionou milhares (ou milhões) a também não aceitarem o status quo do mundo capitalista globalizado para um mundo mais ambientalmente correto, socialmente justo e economicamente viável.

Segundo, ser sustentável requer transformar teoria em prática. Por exemplo, depois de ler muito sobre a indústria agropecuária, tomei a decisão de cortar o consumo de carnes o máximo possível. Separar lixo orgânico e usar menos água, eneriga e plástico também são práticas que favorecem o ser sustentável no dia a dia. Ser a mudança, fazer parte da solução além de identificar o problema, é parte do que entendo como sustentabilidade.

Terceiro, e não menos importante, ser sustentável exige respeitar os limites daqueles que nos rodeiam. Às vezes, um parasita ou outro se combina com a seca forte, deixando a aceroleira morta com poucas folhas ressecadas. Outras vezes, o pé está esverdeadíssimo, ‘quase caindo de tanta acerola´. De forma mais abrangente, a árvore reflete negativa ou positivamente as interações com o meio. Assim também são as pessoas. Há formas de instigar o ser sustentável nos outros sem instigar a raiva, ódio, descaso. Dito isso, confesso que gosto muito de estar com meus amigxs que são ativistas problematizadorxs em todo momento e apontam minhas falhas.

A construção do meu eu sustentável brotou junto com minha interação com meu pé de acerola, cresceu e ramificou-se com a descoberta de instigadores progressistas, floresceu com a transformação de aprendizado em prática, e por fim deu e dá frutos com respeito a quem pensa diferente. Para mim ser sustentável é um processo de crescimento e reflexão. É este ciclo que tem me feito descobrir o mundo, começando pelo quintal de minha casa com uma aceroleira, e nesse processo me encontrei também.

Felipe Storch

Formado em Economia e estudos ambientais pela Franklin & Marshall College, EUA. É analista de P&D do Instituto Socioambiental.

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