Por Samuel Marques

O conhecimento é a melhor estratégia para um voto consciente, e a série de entrevistas VOZ DAS URNAS trará ao leitor do Global Sustentável, um retrato profundo dos principais candidatos ao Governo do Estado do Rio de Janeiro. E como destacaremos em todas as entrevistas, se candidatar ao executivo estadual do Rio, hoje, é um desafio digno de admiração, devido ao caos administrativo e financeiro que o estado está mergulhado. Esse quadro, segundo muitos especialistas, é reflexo da incapacidade do PMDB de governar e consequência de anos de uma administração incompetente e cheia de cortinas de fumaça.

Na estreia da série temos a professora Márcia Tiburi que se define como: “filósofa, uma professora de filosofia, uma escritora, uma pessoa engajada na questão da reflexão luta antifascista, luta feminista, na luta por direitos, da luta pelo esclarecimento, pela lucidez, uma pessoa que tem um carinho especial pela educação e pela cultura, pelas questões das mulheres”.

Sem rodeios, Tiburi nos brindou com uma conversa sincera, definindo seu posicionamento de esquerda. Crítica da Intervenção militar no estado do Rio, Tiburi demonstra claramente a visão de que a medida é uma extensão do golpe político que destitui a presidenta Dilma Rousseff do cargo em 2016. “A intervenção que não tem sentido, que não é boa, que não é produtiva, que não é respeitosa que não cumpre Inclusive a sua promessa, que não tinha como cumprir por que era uma promessa enganosa. Essa intervenção é o efeito do golpe. Ela faz parte do projeto da programação do golpe”, argumenta a pré candidata.

Sobre o machismo Márcia foi categórica ao afirmar que ninguém pode ter o direito de ser machista: “É um absurdo, não se pode construir o machismo como um direito. O machismo é uma forma de opressão e o machista é aquele  que tenta sustentar privilégios através da opressão dos outros. Então quando  a gente está falando de machismo, estão falando de um sistema de opressão e de privilégios, ninguém pode racionalmente reivindicar o direito de ser machista patético isso”, explica Márcia Tiburi, que atualmente é uma das filósofas com maior visibilidade no Brasil, pois suas posições políticas são consideradas muito importantes no cenário atual da política nacional.

Márcia consegue de maneira rápida e didática, estabelecer a lógica do comportamento humano e organizacional, e como isso tem interferido prejudicialmente nas escolhas dos brasileiros, pois os brasileiros têm optado pela falta de opção!

Por isso, a pré candidata petista se tornou para muitos uma opção política nesse deserto considerado, por seus eleitores, como um lugar de ilusões fascistas que compõem o grupo político que se coloca como redentores da reconstrução do Brasil, esse mesmo Brasil que essa classe política destruiu estando ainda no poder. É importante que uma pessoa como ela que pensa e tem um projeto de Brasil, seja lida, vista e ouvida. Márcia Tiburi é uma pessoa rara e corajosa, pois ela desconstrói os muros dos absurdos da pátria amada. Márcia Tiburi, nos faz entender que amar o Brasil é pensar o Brasil! É reconstruir o país.

Abaixo, a entrevista completa com Márcia Tiburi, pré candidata ao Governo do estado do Rio de Janeiro pelo PT. Em breve o podcast com a entrevista na íntegra, estará no ar.

Global sustentável: Quem é Márcia Tiburi e como você se vê nesse processo?

Márcia Tiburi: Samuel te agradeço por essa conversa, e também por essa disponibilidade, inclusive por essa pergunta. É uma pergunta muito difícil.  Nesse processo eu me vejo como uma filósofa, uma professora de filosofia, uma escritora, uma pessoa engajada na questão da reflexão, na luta antifascista, na luta feminista, na luta por direitos, da luta pelo esclarecimento, pela lucidez, uma pessoa que tem um carinho especial pela educação e pela cultura, pelas questões das mulheres, e aí a gente pode colocar educação como uma questão das mulheres que sempre foi historicamente… pode colocar a questão da saúde, física e mental como questões também das mulheres historicamente, faz sentido escrever esses campos da educação. Então eu sou uma feminista invadindo território conhecido por ser um território de homens, machistas, corporativista, capitalistas, muitas vezes racistas, que lutam… que guerreiam contra a população pobre e trabalhadora e contra as mulheres, e contra as minorias políticas, mas eu sou uma feminista que luto contra essa guerra junto, com muitas parceiras e  muitos companheiros  e companheiras.

 

Global Sustentável: Qual é a sua opinião sobre intervenção Militar no Rio de Janeiro hoje?

Márcia Tiburi: Eu vejo essa intervenção com os olhos críticos que a gente precisa ter em relação ao nosso estado e a capital do nosso Estado, mas também em relação ao que foi feito do Brasil a partir de 2016 com esse golpe, que foi misógino, corporativo, legislativo, judiciário, midiático, e que é um golpe que se aprofunda, criando momentos tais como esse da intervenção então. A intervenção que não tem sentido, que não é boa, que não é produtiva, que não é respeitosa que não cumpre Inclusive a sua promessa, que não tinha como cumprir por que era uma promessa enganosa. Essa intervenção é o efeito do golpe. Ela faz parte do projeto da programação do golpe. E por que isso? Porque o Rio de Janeiro é um Estado, e a cidade, a capital do Rio é uma cidade também muito marcada por essa condição de Capital (Brasil) ainda, por mais que ela não seja mais a capital da República, a sua história, ela ficou no nosso imaginário como sendo a capital. Então ela se torna também não apenas por isso, mas também pela presença de grandes corporações midiáticas que aqui tem sua sede é essa cidade ficou marcada e está definido, é sustentado no nosso imaginário. Então ela ficou marcada como um lugar de um grande espetáculo, se você quiser mandar um recado para o Brasil todo você manda pelo Rio de Janeiro… Não tem nada mais forte do que aquela imagem do menino Marcos Vinicius filho da Bruna da Silva indo para escola indo pro CIEP onde ele estudava na Maré, e esse garoto que vai para escola, ou seja, um gesto de ir para escola é um gesto que se define, ou define uma idéia de futuro não… é a criança vai à escola. Podemos dizer que isso é a metáfora de um futuro, de uma coisa bonita, a inocência da criança, do jovem ele tinha 14 anos um garoto que tava indo para escola afinal de contas era um direito… faz sentido o menino ir para escola, mas uma cidade, um estado, um país, uma nação, uma população, uma sociedade permitem que realmente um menino vá a escola, e no entanto, no meio do caminho ainda no ambiente do seu território no seu bairro, ele é assassinado da maneira como foi. Ele é assassinado por uma bala dirigida aos meninos negros da idade dele, a gente está vivendo o genocídio, peso pesadíssimo no Rio de Janeiro, um genocídio que se espalha também pelo Brasil é um genocídio da população negra jovem e é um genocídio que tem história porque eles não começam hoje, tem a ver com o racismo estrutural do Brasil, mas tem também a ver com ódio as classes sociais desfavorecidas e um ódio que se eleva a razão de estado porque é o estado que manda matar é o estado que deixa matar que deixa morrer…

Global Sustentável: Na sua opinião porque a elite brasileira é atrasada ao ponto de não aceitar sociedade mais justa igualitária? Por que a elite não compreende que a oportunidade de fato para todos melhora o coletivo? Na sua opinião, é uma questão filosófica social ou educacional?

Márcia Tiburi: É uma questão super complexa e teríamos que analisar todas essas perspectivas. Jessé Sousa escreveu a Elite do Atraso, é bárbaro, a própria formulação porque as pessoas se acostumaram a chamar de elite algo que seria melhor do que o povo quando na verdade toda Elite é uma elite do atraso… Acho que mesmo a nossa burguesia é uma burguesia que também tem vergonha de ser brasileira, sabe a classe média baixa tem vergonha de ser classe média baixa, de ser pobre, os pobres foram também massacrados, e as pessoas têm vergonha de ser pobres…  Nós somos miscigenados, nos somos negros, nós somos índios, nós somos enjeitados da Europa, às vezes as pessoas falam de quintal dos Estados Unidos. As pessoas aqui no Brasil tem muita vergonha, se eu fosse falar de um afeto que está para além do ódio eu acho que é o afeto da vergonha, também porque muitas vezes as pessoas têm vergonha e passam a se  defender da sua própria vergonha porque a vergonha machuca… O problema da elite é o mesmo problema da classe média baixa, é o problema de tentar ser quem não é. E os pobres fazem o que, a classe media baixa faz. Tentam imitar o padrão estético, o padrão de consumo, inclusive os valores da chamada as elites, então é quando você vê o pobre de direita. Quem é o pobre de direita? É um sujeito que imita uma classe social a qual ele não tem acesso, a qual ele não pertence e seria o mesmo que dizer de uma mulher machista, alguém que fosse marcado para opressão racial e fosse ao mesmo tempo racista. Mas é isso pobre de direita essa figura que paga, se coloca numa posição que ele mesmo não ocupa e como se ele realmente investisse num lugar que não te pertence.

 

Global Sustentável: Diante de tudo o que ocorreu agora na Rússia e as justificativas ante ao fato. O homem que defende aquilo como se não fosse machismo, ele está defendendo o direito de ser machista?

Márcia Tiburi: É um absurdo, não se pode construir o machismo como um direito. O machismo é uma forma de opressão e o machista é aquele que tenta sustentar privilégios através da opressão dos outros. Então quando a gente está falando de machismo, estão falando de um sistema de opressão e de privilégios, ninguém pode racionalmente reivindicar o direito de ser machista, patético isso. Agora isso é uma coisa interessante eu até escrevi um artigo Samuel,  recomendo que você leia está no meu blog da Cut, sobre essa questão porque ali o que esteve em jogo e o que apareceu para nós foi também um processo que também é todo processo de opressão, o capitalismo, racismo e machismo fazem sempre a mesma coisa eles agem como uma espécie de ventríloquo. Tem um discurso ventríloquo e a manipulação de um boneco. Aquelas mulheres foram colocadas na posição de bonecas que vão falar uma fala que não é delas, elas não sabem qual é, a mesma fala do pobre de direita ele não sabe porque que ele está falando, e que está falando alguém e fez com que ele acreditasse naquilo, aí ele não sabe que ele está dizendo mas ele está dizendo que a mesma coisa essa mulher machista.

 

Global Sustentável: Existe uma fala  sua no cenário em que você fala da questão do assalto  muitas vezes utilizam isso, eu entendi o que você quis dizer, e milhares de pessoas também, você já falou em outros  lugares e eu já ouvi. O que eles querem de fato quando acusam uma pessoa como você de defender bandido? O que está por trás disso?

Márcia Tiburi: Isso é uma fake news… então é uma notícia falsa, ela foi criada após  aquele dia em que eu saí de um programa de rádio me negando conversar com esses personagens factóides, que há por aí, esses personagens que ficam buscando momentos espetaculosos para se aproveitar inclusive do capital social político e intelectual de outras pessoas. Então esses personagens em geral esses cidadãos fascistas, tem alguns grupos organizados aqui no Brasil, eles vivem para caçar  uma intelectual  feminista, de alguém que tem algum tipo de conhecimento para poderem mistificar manipular e justamente também se tornarem mais importantes e mais conhecidos para outros grupos em relação esses intelectuais e essas pessoas, tem alguma expressão… Na sequência daquele dia, … então alguém foi a internet catar meus vídeos porque tem muitos eu não tenho controle algum sobre os vídeos que vão para internet. O que eu disse está dito, aquilo que eu escrevi está, publicado e eu não vou dizer nem negar, não sou o Fernando Henrique Cardoso e apagar o que eu disse. Até porque sou uma professora de filosofia e vivo para justamente provocar o pensamento e às vezes faço certas provocações, mas nesse dia não tava fazendo uma provocação não, nesse dia eu tava construindo um argumento falando em primeira pessoa, na hora de construir o argumento eu sou perguntada sobre minha opinião e sobre o que eu digo, eu sou professora de Filosofia, e  não gosto muito da idéia de uma opinião, porque opinião  não é verdade é opinião, eu posso construir uma opinião e provar A ou B,  a partir da construção de uma opinião. Aí lancei esse exemplo bastante absurdo e eu estava argumentando e apresentando em primeira pessoa… Quando a gente começa a construir os argumentos a gente começa a se aprofundar nos detalhes, tudo fica mais complexo quando a gente começa olhar de perto, uma questão ela fica mais complexa e nesse momento eu digo então para aquelas pessoas que estavam lá me entrevistando que eu posso provar, por exemplo, que eu sou a favor que existe uma lógica do assalto, e que eu sou a favor do assalto eu posso provar isso. Nesse momento a repórter pergunta mas: Você é a favor do assalto?  Eu digo não, eu não sou a favor de nenhum assalto, inclusive eu já fui assaltada, roubada furtada… Óbvio que eu não gosto que furte, roube as minhas coisas, como eu não quero que aconteça isso com as pessoas, mas entre ser a favor dos atos criminosos e você discutir os atos criminosos e argumentar e criar figuras de linguagem para tentar compreender existe um abismo. Essas pessoas que disseram que eu sou a favor do assalto, são as mesmas que leem meu livro, que olha o a capa do meu livro como conversar com um fascista, e me chama de fascista, que olham para o ridículo político e dizem que eu sou ridícula, as mesmas que de vez em quando eu mando a capa de outros livros pra elas, porque tem vários livros, mas nunca leram um livro meu também. Então, é obvio Samuel, que eu não sou a favor de nenhum tipo de assalto, ao mesmo tempo eu compreendo que existe uma lógica do assalto sim, é isso que está em jogo, e não quero que as pessoas saiam assaltando, eu quero que as pessoas tenham escola, emprego, oportunidade da vida… Uma coisa aí também que eu acho, só um detalhe sobre isso, eu sou a favor da verdade não sou a favor do assalto. Evidentemente, é incrível como as pessoas que não gostam de mim são a favor da mentira, e estão tentando me usar para poder construir a mentira.

 

Global Sustentável: A Dilma sempre foi usada como meme, usada como caricatura, ridicularizada o tempo todo e o Temer fala muito pior que a Dilma falou e não vira “meme”. Isso é justiça seletiva, ou machismo mesmo?

Márcia Tiburi: O machismo se construiu com uma Justiça seletiva em que as mulheres sempre foram punidas. A Dilma Rousseff ofende muita gente por ser presidente e se dizer presidenta. Muita gente ficou ofendido pelo simples fato de que ela mudou a letra no final, já teve gente aqui dizendo que ela estava errando quando nós sabemos que não, mas o curioso é que além de presidenta ela foi eleita e reeleita, deixou muitos machistas passando mal, várias formas de nervosismo…  Ela foi vítima de um grande processo de misoginia operado pelas grandes corporações midiáticas que visavam justamente tirar ela da cena política, e não haveria golpe e nem o impeachment sem essas atitudes midiáticas, sabemos disso… E eu mesma desde que apareci na cena pública como pré-candidata, tenho sofrido, ou simplesmente por me posicionar politicamente tenho sofrido vilipêndios, essas complicações, essas fake News… Tem um vídeo por exemplo, que o lançamento de livro que fico falando do cú, é um assunto aí de repente literário,  não sei se você chegou a ver, é muito engraçado porque as pessoas começam a fazer transitar aquele trechinho do vídeo engraçado, as pessoas têm problemas com as palavras, mas a própria Dilma Rousseff quando ela tava naquele estádio de futebol, aquela multidão de gente manobrada dizendo “vai tomar no cu”, porque que se podia falar  naquele momento e não se pode fazer uma análise complexa antropológica, epistemológica do mesmo objeto da mesma palavra?… Está em jogo a gente sendo mais honestos, mas sinceros, falar às palavras que devem ser ditas, não ter medo do debate… é verdade que eu posso estar errada. Mas isso não impede que criemos diálogo. Criar diálogo também não é ceder às mistificações que estão por aí na ordem do dia. Notícias falsas, essa gente que fica tentando mistificar com a reposta alheia, e toda uma imprensa também que se vale disso, isso é importante da gente ter em vista.

 

Global Sustentável: Márcia, queria agradecer você a disponibilidade e agradecer pelo carinho e pela consideração, é uma honra ter aqui no  no globalsustentável, uma mulher com disposição para encarar esse desafio que é o  Rio Janeiro.

 Márcia Tiburi: Eu que agradeço é um prazer imenso, espero que o nosso  dialogo evolua em sociedade. Espero que a gente comece ou volte a pensar mais, discutir mais, problematizar mais, pra conseguirmos evoluir o debate, e sair dessa estagnação política social e humana… acho que isso está na nossa perspectiva. Muito obrigado pela entrevista, Samuel.

 

*Colaboração da Jornalista Aparecida Basto.
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Professor de História, pai da Beatriz e um flamenguista sem solução. Apaixonado por política, sempre estive engajado nos movimentos sociais, iniciando com o Movimento Estudantil, a minha história de militância. Atualmente, ansioso por debater as questões políticas no país, se conectando com as mais variadas opiniões, e nunca, mas nunca, sem opinião alguma.



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