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A VIOLENTA EMOÇÃO DE MORO, O “CÔNGE” DA LAVA JATO.

Por Samuel Marques.

No imaginário do Brasileiro médio, Moro sempre teve seu espaço cativo. Aos poucos foi ganhando status de herói e foi preenchendo um vazio no imaginário brasileiro, o “salvador da pátria”. Esse personagem, um Sassá Mutema moderno, esconde em sua sombra a letargia peculiar de um povo já acostumado a viver com o que se tem para hoje, o agora. A elite por sua vez, sempre viu a vida por outros olhos, e visualiza em Moro a oportunidade de realizar um golpe, através da também conhecida, justiça seletiva. Mas isso não podia partir dessa classe abastada, não podia ser uma ideia originalmente de famílias industriais paulistas, essa proposta tinha que vir de uma massa manobrável, de uma “opinião pública” maleável, que facilmente iludida com o sentimento de quase prosperidade, poderia jogar sob o pobre a culpa de seus males, que poderia colocar na meritocracia e seu discurso simplista religioso, o norte para uma maquinação ainda maior, um futuro incerto para os que produzem. Mas para isso precisaria de uma reforma estrutural no sistema vigente, retirando nomes e partidos, colocando novas nomenclaturas como “nova política” e “Brasil Livre”, mas livre de que?  Para responder a essa indagação, era invocado para os megafones midiáticos um problema cultural de nosso país, presente em cada esquina de nosso território, em cada fila furada e em cada blitz comprada, a corrupção. Um problema real, a corrupção passou a ser fixação seletiva de um combate diário, de uma operação que por si só já nascia com um intuito, mudar os rumos políticos nacionais, mudando os personagens, em meio a um cenário repetido. Nasce a Lava Jato, mas não seria o suficiente. Precisaria de mais, precisaria de um herói, uma inspiração, alguém que poderia ter o apoio da burguesia e seu sonho de riqueza, que iria às ruas para dar respaldo as tramoias judiciárias e as manobras que subverteriam a democracia. Levantando um dos seus braços, estavam os interesses internacionais, mais precisamente americanos, e do outro uma elite que não sabe vencer se não dando um tiro no oponente. Assim erguia-se Sérgio Moro, o Juiz salvador, o herói brasileiro, o Ministro da Justiça, o marreco, o ladrão.

Não pretendo nesse texto apresentar a história de Moro até aqui, já conhecemos, e a cada dia estamos mais envolvidos nisso. Os vazamentos das mensagens de Moro e sua trupe de Curitiba estão mais interessantes do que nunca. Moro está acuado e sabendo que a água está fervendo, enquanto ele mesmo anestesiado não consegue pular da bacia. Sentia-se tranquilo, enquanto a mídia, que trabalhou como porta vozes da Lava Jato, lhes dava proteção, mas ela começou a desmoronar, sem trocadilhos, por favor. Ficando um pouco mais isolado todos os dias, nem mesmo as manifestações minguadas do último dia 30 de Junho foram capazes de mudar os rumos de sua caminhada ao precipício. Só lhe resta gritar, vociferando para todos os cantos que as mensagens vazadas são fruto de uma invasão, de hackers, mas não explica que hackers são esses. O Telegram por sua vez, já admitiu que não houve quebra de seus códigos, e ninguém acha esse hacker comunista e anti nacionalista. Moro como um saruê, conto essa história depois, grita sabendo que irá morrer. Diz que não tem como verificar se as mensagens são verdadeiras, pois não tem mais as originais para fazer tal verificação. Mas ressalta que se essas mensagens forem verdadeiras, não vê nada demais, mas teme que a operação Lava Jato e suas condenações sejam canceladas, o que é uma prova que ele mesmo sabe que fez o que lhe acusam de ter feito.

Sobre isso vale lembrar algumas questões. Moro deixou de realizar seu papel de juiz, que deveria ser imparcial, respeitando, por exemplo, o artigo 8º do Código de Ética da Magistratura, e seguindo a risca o artigo 254 do Código de Processo Penal. Se o leitor fizer uma busca rápida no “Google”, e verificar os itens escritos nos artigos mencionados acima, não precisará de nenhum conhecimento jurídico para entender que um Juiz não pode orientar o Ministério Público, que nesse caso em específico é a acusação, dando inclusive dicas contra as argumentações da defesa, ou passando contato de testemunhas.

Nos trechos vazados e publicados na manhã de ontem (05) pela Veja, a lenha ganha novo fôlego. Já sabíamos que Moro e Dalagnol apreciavam Fux e sua proximidade, que entendiam que Teori era um problema, que Dalagnol não entendia como substancial as acusações contra Lula, que achavam o MBL uma piada (isso eu concordo), e entre outras coisas que Léo Pinheiro precisava ser pressionado e posteriormente agraciado com um acordo para poder acusar Lula. Mas no dia de ontem ficamos sabendo também que Moro era contra a delação de Cunha, que Fux era quase membro de carteirinha do fã clube de Curitiba e que Fausto Silva, o apresentador, agora era coach da operação. E sobre essas novas revelações, necessitamos de alguns destaques.

Moro em 2017 inocentou Claudia Cruz, mulher de Cunha, o mesmo que ele nas conversas reveladas ontem, era contra a delação. Moro tem o costume de não querer melindrar algumas pessoas. Uma delação de Cunha naquele momento poderia mudar os rumos da eleição que viria no ano posterior, e destruiria a narrativa de uma corrupção segmentada por um partido, rompendo também as palavras de Jucá e o pacto com o supremo e tudo. E Moro ao inocentar a esposa de Cunha mandou o recado certeiro, de cuidado e respeito. Vale lembrar que esse processo sempre foi conduzido por Moro e os procuradores com preocupações políticas, como já foi revelado em conversas vazadas anteriormente, onde Curitiba estava muito preocupada com os impactos eleitorais de possíveis falas.

Apesar de tudo que já foi revelado pelo site The Intercept Brasil e seus parceiros, existe uma confissão de culpa que se encaixa perfeitamente em todas as mensagens reveladas, assim como na cronologia e no sentido das coisas. Moro ter virado Ministro da Justiça de Bolsonaro. Essa questão é tão séria, que pessoas da operação ficaram contra o Juiz herói, como foi revelada em vazamentos anteriores, mas eu vou mais além, essa aceitação foi acima de tudo, uma confissão de culpa. A visibilidade fica ainda maior, com os vazamentos revelados. Foi uma premiação, um acerto, um “regalo”, pelos esforços realizados na prisão de Lula, e na mexida no tabuleiro eleitoral. Moro não burlou apenas o sistema jurídico, ele atacou a democracia, mudando claramente o jogo no meio de seu andamento. Mas Moro não foi escolhido por acaso. Suas limitações e vulnerabilidades servem a alguém, e como um tango triste, segue a dança sabendo que irá sofrer e cair. O que resta saber, quando e o que leva com ele. Talvez um governo. A indicação ao STF já se foi. Sua credibilidade se esvai com facilidade a cada revelação.

Moro transformou o processo contra Lula em seu capital político, seguindo o roteiro que lhe deram, que incluía uma voluptuosa quantia em dinheiro para seus amiguinhos de Curitiba administrarem, algo que falo no futuro. Porém, Moro, acabou por anular esse processo, que precisa ser revisto e refeito dentro dos trâmites legais. O Juiz de primeira instância que namorava a presidência, e antes uma vaga no STF, hoje não pode se contentar nem com suas palavras escritas e reveladas, que vazadas mostram também uma falta absurda do domínio da língua portuguesa. Moro seguindo e servindo ao seu propósito vai entrando para a história. Ele é o Juiz dos patos, do gado, dos que usam a camisa da CBF para combater a corrupção, representa os cegos. Moro, marreco e “cônge”, conseguiu virar o corrupto, Ministro de Bolsonaro, o que perdoa Onyx e seu caixa 2, o juiz ladrão.

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Samuel Marques

Professor de História, pai da Beatriz e um flamenguista sem solução. Apaixonado por política, sempre estive engajado nos movimentos sociais, iniciando com o Movimento Estudantil, a minha história de militância. Atualmente, ansioso por debater as questões políticas no país, se conectando com as mais variadas opiniões, e nunca, mas nunca, sem opinião alguma.

Professor de História, pai da Beatriz e um flamenguista sem solução. Apaixonado por política, sempre estive engajado nos movimentos sociais, iniciando com o Movimento Estudantil, a minha história de militância. Atualmente, ansioso por debater as questões políticas no país, se conectando com as mais variadas opiniões, e nunca, mas nunca, sem opinião alguma.

Samuel Marques
Professor de História, pai da Beatriz e um flamenguista sem solução. Apaixonado por política, sempre estive engajado nos movimentos sociais, iniciando com o Movimento Estudantil, a minha história de militância. Atualmente, ansioso por debater as questões políticas no país, se conectando com as mais variadas opiniões, e nunca, mas nunca, sem opinião alguma.

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