Sociedade Sustentabilidade

A juventude e o ativismo democrático, Guilherme Wicthoffet

Guilherme Wicthoffet Machado tem 16 anos, nasceu em Angra dos Reis e mudou-se para o Município de Morretes, região litorânea do Paraná, com 2 anos de idade. Sua mãe é professora de História e Sociologia, e seu pai, falecido há 4 anos, era arquiteto de profissão. Guilherme estudou inicialmente em um colégio particular de Morretes, mas em meados de 2015, quando cursava o 9° ano fundamental, ingressou no Colégio Estadual Rocha Pombo, onde até hoje estuda e cumpre papel importante na política estudantil.

Conhecido no Colégio por Machado, ingressou no grêmio estudantil ao conhecer os objetivos e funções desta instituição escolar. De pronto, resolveu montar uma chapa para concorrer às eleições de 2016, fez campanha no colégio, apresentou propostas aos estudantes e professores, discutiu com os seus colegas e acabou exitoso em sua primeira experiência eleitoral. Sua vontade de atuar no grêmio era tanta que resultou numa vitória avassaladora sobre seus concorrentes: conquistou mais votos do que as outras 3 chapas que entraram na disputa.

Desde então, Machado está no posto da presidência do grêmio, e afirma estar cumprindo com os compromissos assumidos durante a campanha. Cita alguns eventos realizados nos últimos 6 meses, como palestras com os educadores Tião Rocha e Valdo

Cavallet, este fundador da UFPR Litoral; reunião com a Polícia Militar para esclarecer os estudantes sobre a importância dos agentes de segurança; atividades esportivas entre as classes para maior integração entre os estudantes e, sobretudo, a luta por direitos dos alunos, servindo à comunidade estudantil como porta-voz de críticas e reclamações.

“Minha grande pretensão é mudar o sistema educativo do colégio”, diz Machado, “atualizá-lo às novas realidades que os jovens estão vivendo, mas talvez isso seja muita pretensão de minha parte. O que temos feito nesse sentido é estabelecer maior proximidade com a UFPR Litoral, por que estamos encontrando aí alternativas interessantes para a construção de um novo cenário político pedagógico.” Machado tem a convicção de que os estudantes do século XXI almejam por experiências escolares diversificadas, e que fujam das tradicionais aulas em sala.

“O que me motiva a atuar como representante dos direitos dos estudantes de seu colégio é a esperança de, a médio prazo, mudar essa realidade ainda tão adversa ao ensino público, bem como, a curto prazo,  engendrar atrativos para que os estudantes se envolvam mais com o ambiente escolar.”

O jovem estudante contribuiu com o desenvolvimento de um projeto que já faz parte das atividades escolares do Colégio Estadual Rocha Pombo, o chamado Morretich (Morretes – Interações Culturais e Humanísticas). Sob a orientação de professores e acadêmicos da UFPR-Litoral,  jovens estudantes secundaristas debatem assuntos diretamente ligados à realidade interna e externa à escola. Esse projeto tem importância sobretudo por estimular os estudantes de ensino médio a ingressarem na universidade, apontando caminhos e perspectivas de futuro.

No entanto, a atuação política de Machado não se restringe ao ambiente escolar. Mesmo não sendo filiado a nenhum partido, na época das eleições municipais de Morretes desse ano procurou se informar sobre as candidaturas e engajou-se na campanha de um dos candidatos. “Aprendi muito sobre todos os tramites políticos e legais que envolvem uma candidatura, bem como todos os mecanismos de divulgação de propostas e debates com os concorrentes.”, afirma Machado.

A atuação mais significativa e Machado no âmbito da política estudantil ocorreu durante a onda de ocupação das escolas que tomou conta de centenas de instituições de ensino no Paraná e no Brasil. Ao discorrer sobre os motivos de seu engajamento ao amplo movimento de ocupações, Machado afirma: “protestamos contra a MP 746 e contra a PEC 241/55, ocupamos por acreditar que vivemos em um Estado Democrático de Direito, por confiar em nossa lei maior, a Constituição, e esta PEC fere os direitos nela previstos. As ocupações ocorreram não por serem 10, 20 ou 30 alunos mas por sermos milhares no Paraná e no Brasil e estarmos garantindo o nosso direito de protesto, garantido pela Constituição. A PEC fere este direito.”

Guilherme relata as calúnias que sofreu de pessoas que pouco sabiam o que estava se passando naquele momento, e como não se deixou abater pelas críticas à sua posição de liderança estudantil. “Muitos diziam que estávamos sendo manipulados por partidos políticos, mas não havia nada disso, tínhamos consciência da nossa luta por um Brasil justo, igualitário e acima de tudo pela a educação pública de qualidade. Ocupamos por nós e por todos os estudantes, sobretudo os mais pobres, por amor a nossa escola e pelo sonho por um ensino de qualidade para todos!”

Segundo Machado, a ocupação seguiu todos os procedimentos legais. “Fizemos primeiramente uma reunião somente da diretoria do Grêmio, e discutimos sobre os comentários muitos alunos estavam fazendo sobre a ocupação do colégio. Essa reunião ocorreu dia 11 de outubro. Nesse mesmo dia encaminhamos um oficio

para a direção do colégio, para convocar uma assembléia estudantil  a fim de esclarecermos um pouco mais sobre a ocupação nas escolas, a PEC e a MP. Após essa conversa, nos aprofundamos sobre os procedimentos a serem cumpridos para a realização da ocupação. No feriado do dia 12 de outubro realizamos uma reunião com as lideranças das turmas no Coreto do centro da cidade para nos aprofundarmos sobre a ocupação. Ali as lideranças se posicionaram favoráveis ao movimento, mas todos cientes de que isto só poderia se realizar após a assembléia estudantil, que seria ficou marcada para sexta-feira, dia 14. Na quinta-feira fizemos mais uma reunião na quadra do colégio, com cerca de 300 alunos do ensino médio e formação de docentes para explicar melhor sobre a PEC e a MP. Nesse mesmo dia a diretoria do grêmio foi até a direção para abrir um dialogo de forma coerente, pacifica a fim de garantir transparência a todo o procedimento. Depois de longa negociação, o grêmio entrou em acordo com a direção do colégio de, caso os alunos resolvessem na assembleia pela ocupação, realizá-la apenas na segunda, para não prejudicar o funcionamento do colégio no período da tarde. Então na sexta-feira, dia 14, às 10 horas, se iniciou a assembléia com uma fala minha de 20 minutos, mais uma vez esclarecendo sobre a MP e a PEC. Depois veio a votação com 250 alunos presentes, se obteve 248 votos a favor, 2 contra e nenhuma abstenção. Por maioria absoluta, nesse dia foi decido que a ocupação iria ocorrer no dia 17 de outubro, as 18 horas.”

Durante a ocupação, como bem lembrou Guilherme, ocorreram muitos debates sobre educação, política, a situação atual da política nacional. Os estudantes junto aos professores organizaram diversas oficinas de cinema, filosofia, teatro, artes, artesanato, música, montanhismo. Para auxiliar os estudantes que fariam a prova do ENEM, promoveram aulões de redação, uma parceria entre o grêmio e a UNESPAR). Os alunos tiveram de cuidar da manutenção do colégio, então dividiram as tarefas de limpeza. Pelo cuidado com a integridade física e moral dos alunos, muitos professores estavam presentes, colaborando com a parte de alimentação e também para pernoitar na escola. “A direção nos deu as chaves de duas salas, uma para dormitório feminino a outra para o masculino, do salão e da sala de artes.” Uma equipe de filmagem ainda produziu um documentário sobre a Ocupação do Colégio Estadual Rocha Pombo, que em breve será publicado na internet.  

Sobre todo o contexto da realidade política brasileira que desencadeou na onde de ocupações, Machado faz a seguinte análise: “Não vejo como sendo uma crise econômica, e sim política. Há uma briga entre dois lados pelo poder. Claro que existem problemas econômicos, mas a instabilidade política agravou o problema, veja só, as principais lideranças do congresso estão envolvidas em graves investigações relacionadas à corrupção. Além disso, a mídia brasileira contribuiu com a crise por informar de modo tendencioso, ou seja, sem compromisso em esclarecer a real situação para a população.”

Ao ser questionado sobre o significado da política, responde: “É mudança, renovação, um caminho para mudarmos o presente e transformarmos a nossa vida social, torná-la mais igualitária, tentar conciliar justiça, democracia e liberdade de expressão.” 

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