A jornada de volta à Mulher Selvagem, por Amanda Malucelli

Como descrever uma jornada de volta pra casa?

Essa jornada à casa interna, ao centro de si, que em algum momento toda mulher é convidada a percorrer, bateu na minha porta de uns três ou quatro anos pra cá… Nesse tempo, era tudo ao mesmo tempo agora, o profissional tentando se reintegrar com a vida, propósito desafiando a carreira, vida amorosa ruindo, solitude conquistada, independência financeira, responsabilidades, necessidade de autoexpressão… Uma jornada autopoiética por excelência!

Tudo isso em pacotinhos de acontecimentos, “acasos” e circunstâncias, que hoje enxergo e honro como as únicas coisas que poderiam acontecer pra trazer esse propósito único, que é de nos autocriar, e tudo que acontece ‘externamente’ é um estímulo, um convite pra dançar com nosso mundo ‘interno’ e assim poder nos transformar a todo momento.

Não veio de uma vez, não veio pronta, assim como um convite pra dançar, foi um convite pra entrar em labirintos obscuros e ter coragem de olhar alguns dragões nos olhos… Hoje empreendendo um projeto chamado Transbordas e entendo que cada vez que fui chamada a transbordar – para ‘bem’ ou para ‘mal’ – fui convidada a criar mais uma camada… camada após camada… que ainda hoje estão sendo dolorosa e deliciosamente desveladas.

Quando iniciei essa jornada de desabrochar interior, comecei distraidamente olhando pra fora, “o mundo”, “a sociedade”, “a globalização”, “o capitalismo”… então eu vi uma mãe ferida, mas extremamente e abundantemente poderosa, com uma força inesgotável de se reerguer e transformar… A Mãe Terra, Gaia, Nhandecy, mãe de todos os seres, cujo sangue verte pela selvagem e majestosa região do Amazonas e seus afluentes. A mãe que, nos últimos X anos de patriarcado, sofre com a mentalidade exploratória, de conquista, competição e tantas coisas que expressam o desequilíbrio da energia masculina no planeta… Uma mãe que parece agora se reerguer e clamar tão alto que muita gente – como eu – já está escutando e correndo de volta para os seus braços.

Mais tarde, percebendo que não existe ‘fora’ e ‘dentro’, em paralelo à essa visão ecológica, outros rios, corregos e águas dentro de mim se moveram e me levavam à partes tanto sombrias e emaranhadas quanto belas e intocadas do meu ser… Uma das mulheres que me ajudou nesse processo de “iniciação” foi Clarissa Pinkola Estés, autora do livro Mulheres que correm com os lobos.

Ahh, esse livro caiu no meu colo, literalmente abri em qualquer página e comecei então a ver ali refletida uma jornada pela qual a minha psiqué estava passando. Esse livro me apresentou um novo arquétipo – que passa pelo arquétipo da donzela, da grande mãe e da velha sábia – pra resgatar a mulher selvagem que está adormecida em todas nós.

E que selvagem é esse?

Engana-se quem relaciona o selvagem com a ‘selvageria’, da violência, da guerra, da ação agressiva, com a atitude exploratória, rápida e abrupta, como a gente costuma ver a força, e que na minha visão está muito mais relacionada com nossos referenciais distorcidos do masculino. Eu quero falar sobre outro selvagem, de uma potência que vêm de outro lugar, vem do mais profundo e interno, vem das vísceras e é parido pra fora. A selvagem energia feminina.

No livro, Clarissa explica: “E então, o que é a Mulher Selvagem? Do ponto de vista da psicologia arquetípica, bem como pela tradição das contadoras de histórias, ela é a alma feminina. No entanto, ela é mais do que isso. Ela é a origem do feminino. Ela é tudo o que for instintivo, tanto do mundo visível quanto do oculto – ela é a base. (…) É a intuição, a vidência, é a que escuta com atenção e tem o coração leal. Ela estimula os humanos a continuarem a ser multilíngües: fluentes no linguajar dos sonhos, da paixão, da poesia. (…) Esses sinais enchem as mulheres de vontade de encontrá-la, libertá-la e amá-la. Ela é idéias, sentimentos, impulsos e recordações. Ela ficou perdida e esquecida por muito, muito tempo. Ela é a fonte, a luz, a noite, a treva e o amanhecer. (…) Ela é a voz que diz, “Por aqui, por aqui”. Ela é quem se enfurece diante da injustiça. Ela e a que gira como uma roda enorme. É a criadora dos ciclos. É à procura dela que saímos de casa. É à procura dela que voltamos para casa. (…) Ela é a mente que nos concebe; nós somos os seus Pensamentos.”

Em nossa sociedade contemporânea e no imaginário coletivo ainda faltam referenciais de mulheres que sejam valorizadas justamente por suas potências naturais, femininas e “selvagens”. Queremos as mulheres em pelo menos 50% dos cargos de representatividade, que elas se “empoderem”, ganhem espaço de fala… mas continuamos valorizando aquel@ que fala mais alto, que mais fala ou que fala primeiro. Aceitamos ser liderados por aquel@ líder que saiba se “impôr”, que “prove a que veio”, que mostre imponência, que gere impacto. Ainda esperamos atitudes que muito se assemelham aos padrões fálicos que vinham sendo exaltados até então.

É preciso reconectar a ideia de poder e coragem com habilidades essencialmente femininas, que são aquelas que guiarão nosso futuro complexo, incerto e paradoxal para alguma chance de perpetuidade, regeneração ou ainda sustentabilidade. Habilidades como a presença, a atenção, hold space, criar um campo de confiança, poder COM em vez de poder SOBRE, gerar potência com o que há >> entre nós << e não com o que é ‘meu’ ou ‘seu’. Uma postura capaz de gerar vínculos, ciclos, fluxos, escuta empática, integração. Usar a sabedoria interna, a intuição, sentir e responder, confiando na inteligência do corpo, do coração e da mente não racional, adaptar-se, vulnerabilizar-se, ter flexibilidade, cultivar o sutil, o subjetivo, abstrato e intangível (SIM!) e o universo da gestação de ideias sem os quais nenhum “objetivo”, “tangível” ou “produto final” teriam a oportunidade de existir e sequer serem imaginados. Todas essas são habilidades que a energia feminina realiza com primor.

O que não se restringe às mulheres e não quer dizer que homens não possam – e devam – cultivar e aprender essas habilidades, mas que aqui eles (geralmente) estão no lugar de aprendizes. Não se trata também de dizer que mulheres devam – sempre e só – acolher, perdoar, ceder, flexibilizar, não. Valorizar essas habilidades não significa esperar para sempre que a mulher ocupe o papel maternal (mãe do companheiro, do chefe, do colega). Ah, ela pode ser mãe do mundo inteiro, SE ela quiser… É tempo da Grande Mãe voltar – com as lobas e bruxas e todos seus arquétipos – e ela já não acolhe garotos mimados, não dá mais tempo!

Tampouco se trata de criar separação e competição, certo e errado, um sobre o outro. Se hoje é dia de exaltar o feminino é dia de ressaltar a integralidade e o equilíbrio do feminino e masculino em cada um de nós. E nesse ponto tenho visto tantos exemplos de como o feminino está se movendo para reequilibrar esse sistema capenga, que por toda uma era – necessária – esteve explorado e conquistado pelo masculino. O feminino sim vai querer lugar de fala, vai fazer textão, vai querer gritar, esbravejar e falar mais alto, ou falar mais baixo pra que todos escutem. Tudo isso pra equilibrar e integrar.

Equilibrar não é fazer o gol no adversário pra empatar o placar, não é bater de volta… este jogo a gente já conhece e sabe quem criou. Integrar é aquilo que a força feminina melhor aprendeu a fazer, é amar antes de tudo, é incluir a si sem anular o outro, enxergar a dualidade mas principalmente enxergar o que há além dela e a integra, onde todo 2 vira 1 e todo um 0. Pronto, deu zero a zero e todos ganharam infinito! Integrar é responder com integridade, apesar da dualidade, conforme a sua consciência e verdade, que tudo acolhe.

Mas para isso estamos – eu e muitas mulheres – aprendendo a começar por nós mesmas. Lá no livro da Clarissa, seus contos, resgatados de outras mulheres de todos os tempos e lugares, me guiaram nos caminhos pelos quais minha psique precisava passar. A primeira história que abri foi logo a de uma donzela indefesa – aos olhos do mundo – que percorria uma jornada nada mais nada menos que de sete níveis de descidas ao submundo. É, pra minha surpresa a “jornada da heroína” que me representa não tem só um enredo, mas um sem fim de caminhos e curvas…

Meses e meses depois que a primeira história enfim foi sendo digerida e integrada na vida prática, a segunda história já era a da menina que aprende a reconhecer e dar ouvidos à sua intuição… carregando e mantendo a luz acesa dentro do seu cajado, ela me acompanha até hoje nos momentos em que – literalmente – estou perdida, ou andando numa trilha escura, ou viajando sozinha, ou tenho que tomar uma decisão importante da minha vida…

Em momentos de confusão nas relações a história do Barba Azul vinha pra me lembrar de confiar no “sexto sentido” e abrir aquele quartinho escuro antes de confiar cegamente nas aparências.

Pouco antes de sair pra viajar veio a história da mulher com pele de foca, que me deu impulso pra lembrar que toda mulher sente um chamado da alma, uma ou várias vezes na vida, um chamado tanto irracional quanto irresistível e visceral… e então eu fui…

Ao longo de seis meses viajando sozinha estou tendo a oportunidade de sentir muito medo, de me sentir insegura, covarde e tímida diversas vezes. E entrar em relação com isso é o que tem me ajudado a encontrar a coragem, a segurança, a autoexpressão que também estavam aqui. Hoje quando me sinto sozinha desenvolvo ainda mais amor e gratidão por todas as pessoas que me compõem e criam comigo relações.

Esses são exemplos de como intuímos, agimos e usamos todo um repertório inconsciente & consciente, intuitivo & racional para integrar em nossa ação diária os aprendizados dos caminhos tortuosos que percorremos. Se existe algum conselho que eu arrisque ele é: não acredite em mim e em ninguém mais do que na sua verdade interior, naquele lugar onde só você vai e lá você se encontra, e você chega perto de você e sussurra no seu ouvido aquela resposta.

Às vezes leva tempo e empenho pra desenvolver essa escuta, mas vale a pena a cada passo!

 

Amanda Malucelli, Aprendiz, Educadora Livre, Facilitadora e Anfitriã de Aprendizagens Transformadoras.

Integrante do Projeto Transbordas, uma jornada pelo Brasil, vivencia, testemunha e aprende mais sobre comunidades através deste Projeto, o Projeto Transbordas permite uma aprendizagem transformadora e vivencia o desenvolvimento das comunidades onde o Projeto está inserido.  

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