Sustentabilidade

A invenção do Índio no olhar do processo civilizatório

Por Vladimir Oliveira

Quem são os índios? Uma pergunta aparentemente fácil, mas cuja resposta pode ser bastante imprecisa. O termo definiria todo sujeito histórico descendente das nações pré-colombianas? Seriam as comunidades autóctones antes da colonização? Afinal, a criação deste conceito vem do final do séc. XV quando Colombo erroneamente considerou ter chegado às Índias, dada as imprecisões das cartas náuticas que utilizava.

Mesmo em referência às Índias o conceito é bastante discutível. Foi uma referência persa do séc. XII aos povos que viviam às margens do Rio Sindo, e que por corruptela da linguagem se converteram em habitantes do “Vale do indo”. Historicamente nem os habitantes da península da Índia se sentiam confortáveis com a denominação de índios, indianos ou hindus. Esta representação de um povo acabou ganhando autonomia e força política a partir da colonização inglesa, ao ponto de hoje a Índia aceitar esta definição.

As primeiras narrativas dos europeus sobre o Brasil colonial utilizam os termos “gentios”, referindo-se aos índios livres que não haviam sido integrados à ordem colonial. No entanto, “índio” foi a terminologia que predominou vulgarizando-se nas representações sociais.  A palavra por si só já apresenta duas dimensões históricas de “estigmatização”. Inspirando-se em Marx, mas colocando-se para além dele, farsa e tragédia se integraram nestes projetos coloniais.

A palavra índio ou indígena e acabou sendo aceita e passou a designar a resistência dos povos ancestrais que habitavam a “terra das Américas” anteriormente à chegada do “projeto civilizacional” ocidental.  No Brasil, foi nos anos 80 que a “representação dos índios” ganhou força e organicidade, constituindo-se num passo importante para a definição dos territórios e das reservas indígenas, definida pela Carta Magna de 1988.

Com a chegada dos colonos e dos jesuítas às Américas, os índios foram considerados como selvagens irracionais e inferiores. Suas representações evidenciavam antinomias pendulares. Invariavelmente eram apontados como preguiçosos e selvagens, ora eram considerados como racionais, obedientes e viáveis ao trabalho escravo.

Chegou-se a debater muitas vezes sobre sua condição, se estes “gentios” seriam humanos o suficiente para serem convertidos ao cristianismo, e aptos em receber o batismo e os demais sacramentos.  Buscava-se identificar se estes possuiriam uma alma para receber a salvação, transformando-se ao menos em um bom selvagem digno de Cristo.

  Resolvido à questão, por intermédio de bulas papais, orientações do Concílio de Trento e normatizações jurídicas coloniais, foi somente no séc. XIX, alimentado pelo espírito romântico da literatura que o índio passou a designar o símbolo do edênico. Retratado como um verdadeiro herói na cultura brasileira, configurando a imagem idealizada de um primitivismo inocente e encantador.

A representação simbólica do índio, ainda hoje perpassa pela idealização ou demonização, seja pelo lobbismo ruralista, por práticas missionárias de conversão principalmente protestantes ou pelo romantismo literário e acadêmico. A questão é que os índios quase sempre são representados no olhar do outro, sem princípio, alteridade ou autonomia de se autodefinir por si mesmo de forma suficiente.

Ainda que as populações indígenas venham apresentando um crescimento populacional segundo o IBGE, o genocídio e o extermínio cultural e a desconstitucionalização dos direitos indígenas ainda continuam. As florestas e os povos que nela habitam ainda apresentam um futuro incerto.

Vladimir Luís de Oliveira

 http://lattes.cnpq.br/7157136303967279

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