A felicidade que se compra na farmácia: Qualidade de Vida!
Por Eduardo de Campos Garcia

 

Guy Debord (1931-1994), em seu livro A Sociedade do Espetáculo, fez uma crítica aos meios de produção cultural que transformava o homem e a mulher numa projeção ficcional.

 

Nesse cenário, a vida se reduz a fantasias identitárias de autoafirmação pela qual a existência se torna coisificada.
Para Debord, a sociedade ocidental e seu modo de organização, tendo como alicerce o capitalismo e o livre mercado, captura a alma humana e a transporta para um lugar vazio.

 

Na sociedade atual, o que vale, não são os sonhos, tampouco os desejos, mas a projeção. A vida se esvai em alegorias de si e sobre si na medida em que não somos mais tão verdadeiros, nem com o outro, tampouco conosco mesmo. Como disse Tiburi em uma de suas publicações sobre corporeidade: “somos constituídos de matéria e símbolo” (2011).
O que sobra são angústias e afetos transformados em patologia. Entre os afetos proibidos, o mercado fez da felicidade uma necessidade cotidiana e a tristeza, inerente ao ser humano, foi aos poucos se transformando em “coisa feia e proibida”.
No século XXI, anunciar-se triste parece ser coisa não grata. Fotos nas redes sociais esboçam uma imagem de si irreal, propagandas vendem a necessidade de ser feliz, o modelo para o capital produtivo impõe sorrisos a todo tempo. O ser humano perdeu o direito de sentir tristeza.

 

Na relação que se estabelece, não importa se aquilo que digo ser meu é realmente meu, ou se na verdade é uma projeção falsa do que afirmo ser e ter; o importante é parecer ter – projetar uma imagem satisfeita e feliz.

 

O mercado, não só cria produtos para consumo como também fez da imagem de si um produto de mercado. Na inconstância das relações, a carne humana é eviscerada em função do capital e a qualidade de vida, quase sempre, ocorre por buscas externas, realizações ocas e opacas, acordos vazios. O homem e a mulher perderam o direito à tristeza. Contudo, no universo dos desencontros e das desilusões, da angústia profunda que habita o ser, os psicotrópicos se encarregam de produzir felicidade num cérebro desgostoso com tantas desigualdades.

 

Os dispositivos farmacológicos, os neurotransmissores, cumprem a função de induzir à felicidade, ainda que alegórica, o corpo surrado. Simbolicamente a alma morreu e deu espaço a qualidade de vida ilusória e enganosa.

 

As relações superficiais, essas estabelecidas pela desvalorização do humano em detrimento do capital, revelam que sofremos, mais que de depressão ou estresse, de uma patologia moral. Em função da moral doente, tudo o que for feito em nível externo não dará conta de produzir “qualidade de vida” porque quando a felicidade se compra na farmácia é preciso repensar o sentido da existência porque política e indubitavelmente desumana. Portanto, há de se buscar uma reflexão profunda sobre o que fazemos, por que fazemos e a quem servimos. No fio condutor da vida é urgente a terapêutica moral para que a felicidade seja uma realização de dentro para fora e não produto capitalizado. Caso contrário, o que sobra, é espetáculo.

 

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