Sustentabilidade

A Experiência de Famílias Homoafetivas: em Busca de Visibilidade Social

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Casei com o Weykman Padinho há quase 10 anos. Desde o início de nosso relacionamento, almejávamos e projetávamos nossa família com a vinda de nossos filhos. Nunca tivemos qualquer dúvida que o caminho seria a adoção.

O primeiro contato com a Vara da Infância e Juventude foi realizado em janeiro de 2013 e logo tivemos uma grata surpresa. A acolhida ao casal homoafetivo, que ali estava para iniciar os procedimentos para habilitação à adoção, foi total e não sentimos qualquer ar de preconceito ou discriminação. Exatamente como deveria ser.
Ali começava nossa “gestação”. Participamos de diversos grupos de apoio à adoção, tanto presencial quanto através de mídias sociais, lemos muito e, cada vez mais, nós nos apercebíamos como pais. Pensávamos em duas crianças, preferencialmente irmãos, de qualquer etnia – nosso “perfil racional”.
Todo processamento da habilitação correu sem problemas, recebendo considerações positivas dos profissionais técnicos e do Ministério Público, até receber a sentença: podem ser pais pela adoção.

Ao receber a comunicação e a possibilidade de conhecimento de um grupo de quatro irmãos em um Abrigo da Zona Oeste do Rio de Janeiro, começamos a discutir sobre a logística, sobre os acertos, sobre as atribuições, mas, em momento algum, deixamos de considerar a hipótese de tê-los como filhos. O primeiro contato, numa visitação pública, não nos deixou dúvidas: nós estávamos ali para eles e eles estavam ali para nós.
Entre esse primeiro contato e o momento de abrir a porta de casa para a entrada de nossos quatro filhos foram apenas setenta dias, período propício para que eles pudessem adotar-nos.

A mudança em nossas vidas foi total e, naquele momento, foi fundamental que nos empenhássemos para conseguir o direito à licença adotante, por vias judiciais, já que administrativamente havia sido negada, com base no Estatuto do Servidor Público. Entretanto, o juiz foi de uma incrível sagacidade ao conjugar os preceitos desse mesmo Estatuto com a decisão de equidade do Supremo Tribunal Federal entre quaisquer casais, em qualquer composição conjugal.
Todas essas questões: adoção por casal homoafetivo, de quatro crianças, irmãos, negros, três deles com histórico de necessidade de tratamento para negativação do vírus HIV, licença adotante, levaram a uma procura da mídia: eram notícias.

Com essa exposição, fomos convidados a participar de seminários, fóruns e simpósios e, como consequência, conhecemos um grupo que iniciara a discussão para criação de uma instituição voltada à união, ao congraçamento e à luta pelos direitos das famílias homoafetivas.
Nossa adesão foi imediata e, conjugando com nossas experiências na formalização e estruturação de entidades do terceiro setor, conseguimos dinamizar a consolidação do Estatuto Social e a formalização da ABRAFH – Associação Brasileira de Famílias Homoafetivas.
Essas iniciativas levaram o grupo a convidar-me para presidir a ABRAFH nesse primeiro momento.

Eu e meu marido sempre conversávamos, desde o início de nosso relacionamento, sobre a ausência de modelos de felicidade, de projetos de vida, de ações propositivas em relação à comunidade LGBTI e às famílias homoafetivas. Como era difícil para um jovem gay poder-se espelhar em outros que viviam dignamente, com esperanças e com anseios de constituir uma família.
Sempre foi difícil para lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais assumirem suas orientações, suas vidas, seus relacionamentos, mas isso vem mudando positivamente nos últimos anos. Entretanto, ainda é muito difícil para as famílias “saírem do armário”, e terem uma exposição, uma visibilidade positiva para a sociedade.
Mostrar que nosso afeto é comum, que nosso relacionamento é comum, que nossos filhos são comuns e que nosso amor é comum.
Esse é um dos princípios de nossa luta na ABRAFH. A exposição é um fator de conhecimento, de informação, de possibilidade de compartilhamento, de empatia, e, consequentemente, de diminuição da ignorância, do preconceito, da discriminação, da homofobia e da transfobia. E é também um fator de segurança, de autoafirmação, e, sobretudo, de respeito.

Essas conjugações levam-nos à luta pelos direitos que ainda são negados. Não buscamos mais direitos, mas, tão-somente, os direitos.
Desde alterações em formulários e contratos que conjuguem a identificação das mães ou dos pais, ao registro de nascituros por suas mães e seus pais, passando por mudanças na legislação que normatize o casamento civil igualitário, e consequentemente os direitos de família, sucessórios, conjugais. E muitos muitos muitos outros que são colocados à parte.

A ABRAFH congrega membros LGBTI, mas também profissionais que atuam nas áreas relacionadas à homoafetividade e às questões que nos são caras, simpatizantes e apoiadores de nossas causas, amigos e parentes, e, cada vez mais, é procurada por casais heterossexuais que, ao descobrir que seus filhos são gays ou lésbicas ou transgêneros, procuram informações e modelos que dignifiquem suas vidas e permitam viver em felicidade.
Realizamos encontros, congressos, seminários, grupos de discussão e apoio. Participamos de diversos eventos e conjugamos nossos esforços a diversas entidades que militam na busca pelos direitos dos LGBTI e das famílias homoafetivas.

Não é fácil, não está sendo fácil, mas cada conquista é um alento na preservação de vidas, na aceitação e no conhecimento, na diminuição de qualquer forma de preconceito, discriminação ou violência, e no compartilhamento de experiências e, sobretudo, das felicidades.
E, para terminar, deixaremos aqui alguns depoimentos de membros da ABRAFH em nosso último encontro de congraçamento, em comemoração ao primeiro aniversário da Associação e, em particular, pelo Dia das Crianças:
“Adoramos a Festa, tudo lindo, tudo mágico, nosso filho ficou muito feliz. Ele não tinha e nem fazia a ideia de quantos pais iguais aos deles existiam … nossa, ele está com uma expressão de alegria além do Habitual… Agradecemos por tudo e principalmente que nosso filho que entrou na festa com uma visão e saiu com um outro prisma na maneira de ver as coisas” …

“AMAMOS!! Amamos a oportunidade de nossas filhas conviverem, mesmo que ainda muito pequenas para entender o significado disso, com crianças iguais a elas, que brincam, pulam, fazem pirraça, dançam e são muito amados por suas mães e seus pais! Muito obrigada por isso ❤E parabéns à ABRAFH e a todos que a compõe! Juntxs somos bem mais fortes! Beijos e até o próximo encontro!!!”

“Sem palavras para expressar o amor com que fomos recebidos. Amamos muito e estaremos sempre presentes nos demais. Ver nossos filhos felizes se divertindo, conhecer os pais fabulosos, as lindas famílias iguais a nossa, me emocionou. Sim, é possível porque é”

ABRAFH | Associação Brasileira de Famílias Homoafetivas
www.abrafh.org.br

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