Por Luccas Cechetto*

Todo contato com a contradição nos coloca em conflito. Conflitos são circunstâncias em que consequências variadas e de diferentes níveis de intensidade (boas, ruins ou boas e ruins) podem se apresentar, ao mesmo tempo, ao tomarmos uma decisão – ainda que se posicionar a respeito de algo não seja o primeiro exemplo que nos vem à cabeça quando pensamos em escolhas.

Da presença ou ausência de um repertório razoável de tomada de decisões e tolerância à frustração costumam se desenrolar as mais diversas estratégias pra lidar com o desconforto que se instaura diante escolhas, variando na rigidez e, consequentemente, no sofrimento que se constrói a partir disso. Quanto mais ausentes esses repertórios, mais rígido tende a ser o seguimento de regras, a evocação de figuras de autoridade e o rechaço às contradições.

Não se trata aqui de apontar problemas em determinados discursos como problemas individuais. Pelo contrário, as circunstâncias para que repertórios de habilidades sociais saudáveis se desenvolvam estão longe de ser responsabilidade individual e devem ser ponto de debate constante em qualquer tipo de organização que se pretenda não só enfrentar, como não continuar reproduzindo relações tóxicas. A ausência de debates e planejamentos sobre questões como essas costumam ter como resultado organizados rígidos e com muita dificuldade em trabalhar com contradições, transformando essas organizações em espaços dogmáticos e conservadores.

Momentos históricos como o em que vivemos tendem a potencializar a sensação de ameaça e nos forçam a entrar em contato com conflitos com muito mais frequência, aumentando ainda mais a rigidez quando na ausência de um rol de comportamentos para lidar com contradições de maneira mais humanizada. O conservadorismo que tanto buscamos combater se enraiza na própria esquerda a fazendo reivindicar velhas formas de fazer política ao se sentirem ameaçados pelas mudanças anunciadas pelo novo.

Não há como mudar sem errar, sem cair em contradição e sem se frustrar. Nada disso, no entanto, deve nos fazer recuar ou evocar purismos dogmáticos, pois tais discursos servem apenas para fragmentar, isolar e enfraquecer o campo progressista que tanto já pena para conseguir resistir ao que está posto. Cair na estratégia da generalização para deslegitimar a mudança é uma opção de defesa torpe, uma vez que não consegue apontar horizontes amplos, apenas clubes de convertidos.

É necessário extinguir do campo progressista discursos, por exemplo, que colocam duas lideranças de dois dos movimentos que mais estiveram em luta na história desse país – o da luta por moradia e o movimento indígena – como linha auxiliar de um partido cujo enfrentamento, assim como de todos os partidos da ordem, sempre nos uniu e continua nos unindo ainda mais com a entrada de Guilherme Boulos no PSOL e a construção dessa aliança com Sônia Guajajara para não só marcar presença, como disputar os rumos desse país nas próximas eleições.

Os que evocam tal generalização deveriam pensar em fazer essa mesma afirmação para cada uma das famílias do MTST e cada um dos indígenas que estavam na Conferência Cidadã ou acompanhando virtualmente e se vendo representados em candidaturas ao cargo mais observado do país. Vale lembrar também que esse discuro de linha auxiliar, ou de abertura para o PT já foi utilizado em diversos momentos e com muita frequência por grupos que certamente não estão no campo progressista. A evocação da burocracia é também estratégia antiga da direita sempre que percebe que pode se ver diante uma contradição. É imperiosa a necessidade da esquerda reconhecer em seus próprios discursos e ações a legitimação de ideologia burguesa para além daquilo que já é muito nítido.

A arrogância colonizadora muitas vezes faz com que achemos que todos espaços políticos que existem se constroem da mesma maneira que as organizações em que estamos. Estas que, infelizmente, em sua maioria se apresentam profundamente patriarcais, heteronormativas e racistas, quando não também meritocráticas e dogmáticas – problemas que insistem em ignorar por excesso de generalizações como a que coloca as mais de 50.000 famílias do MTST e as incontáveis famílias que compõem a APIB – pra citar só os movimentos representados nos dois – como alvo de suas críticas mais contribuindo pra dificultar a já muito tardia volta da aliança dos movimentos sociais com a esquerda socialista do que para a construção de uma alternativa ao projeto temeroso que está sendo aplicado no Brasil.

Não é um problema sentir medo ou se sentir ameçado em conjunturas como essas, mas temos que ser capazes de olhar para nossas organizações e para nós mesmos e nos perguntar com que frequência estamos mais nos comportando para evitar aquilo que nos ameaça do que para construir aquilo que queremos, com todas as contradições, incertezas e conflitos que isso irá apresentar. Não precisamos temer a mudança, precisamos disputá-la e isso só se faz estando dentro da mudança.

A História irá cobrar caro da esquerda senão formos capazes de entender as tarefas que esse momento nos exige e preferirmos ficar disputando quem é mais revolucionário ou mais perfeitamente alinhado com algum discurso teórico. Vamos juntos e juntas nessa aposta por uma nova forma de fazer política que, não por acaso, nos deixa inseguros. É uma experiência completamente diferente e que teremos que arregaçar as mangas e construir em unidade para que as eventuais ameaças apontadas não tenham condições de emergir. O que não podemos fazer é continuar repetindo os mesmos erros por medo de não termos controle total do que vem pela frente. Nunca tivemos e nunca teremos, mas resistência não se constrói só em certezas e a mudança nunca o é por completo se apenas apontar horizontes mais rígidos.

Para aqueles que temem o que pode vir a ser da esquerda ou do PSOL com a candidatura de uma figura apoiada pelo Lula (como se isso fosse mais importante que a trajetória de Boulos e do MTST e também mais importante que o fato de que foi ao PSOL e não ao PT que Boulos se filiou) eu os convido a virem disputar e construir a campanha do Boulos e da Guajajara pelo Brasil, a aliança que responde à altura os desafios colocados para o campo progressita nesse momento.

Vamos! Sem medo de mudar o Brasil com Boulos e Guajajara!

*Luccas Cechetto é Mestrando em Análise do Comportamento pela UFPR, secretário geral do PSOL Curitiba e membro da Insurgência, tendência interna do partido.

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