Sustentabilidade

A dimensão simbólica da água na experiência do sagrado

Por Vladimir Luís de Oliveira

A vida nasceu das águas. Esta afirmação é tão válida para o discurso científico ao remeter para a ancestralidade da biosfera, quanto para a gênese dos mamíferos placentários no Período Mesozóico, incluindo-se também, por extensão, os primatas que surgiram mais tardiamente no período cretáceo.

Jamais podemos esquecer que a constituição do Self e a materialização orgânica do ser humano se forma nas águas do ventre materno. O psiquiatra Stanislav Grof ao desenvolver as técnicas de regressão por hiperventilação, orientada para o tratamento das “crises espirituais”, relata muitos casos de pacientes que experimentaram psiquicamente uma existência primordial em um universo aquático, não raras vezes, envolvendo períodos perinatais anteriores ao nascimento.

Talvez esta possa ser considerada a experiência do sagrado primordial, onde podemos vivenciar o inconsciente direta e profundamente. A vida em sua origem é a própria vivência do numinoso.

Nas narrativas míticas antigas, em diferentes povos, também encontramos o mito das águas ora como o mito escatológico de Final dos Tempos, ora como mito do início primordial da Era dos Deuses.

Na tradição judaico-cristã o mito do dilúvio é configurada como a destruição e reconstrução do mundo. Esta narrativa encontra-se também na Epopéia Mesopotâmica de Gilgamesh, que segundos alguns estudiosos do tema, é anterior e mais antigo que a narrativa bíblica no livro dos Gênesis.

Na tradição védica da cultura hindu, apresenta-se a batalha mítica do deus Indra que matou o dragão Vritra que retinha em seu ventre as aguas primordiais. Com sua morte, as aguas foram liberadas e o ciclo da vida recomeçou.

Os rios que sustentaram a vida entre os povos neolíticos e antigos, invariavelmente associavam esses rios a divindades. Praticavam ritos e sacrifícios para as chuvas e para os rios, uma vez que, tais povos de base agrícola dependiam sobremaneira das aguas fluviais para o êxito do plantio e da colheita. Entre os Mesopotâmicos havia o Rio Tigre e Eufrates, na região da Síria-Palestina o rio Jordão, na Índia o rio Sarasvati e o Ganges. Na China o Rio Azul e Amarelo, na África o Rio Nilo e assim por diante. 

Na consciência dos povos míticos, as forças da natureza não estavam dissociadas das deidades. Os ritos para atrair fertilidade à terra e as chuvas, devia seguir um rito preciso. Períodos de estiagem ou grandes enchentes eram considerados castigos divinos, decorrente da corrupção moral dos homens e o desrespeito e negligência aos ritos sacrificiais aos deuses.

A água também está associada aos ritos de passagem. João Batista batizou Jesus nas águas do rio Jordão.  Diariamente diversos hindus banham-se nas aguas sagradas do Ganges e mais intensamente nas festividades que ocorrem a cada doze anos conhecida como “Maha Kumbh Mela”. Chegam a se concentrar mais de 100 milhões de pessoas às suas margens em louvor ao deus Ganga.

Nos mitos hindus sobre a origem do Universo que estão presentes na filosofia Samkhya, a mais antiga da Índia, a água aparece como uma das matérias originárias da vida, seguido por outros quatro elementos: terra, fogo, ar e éter.

Na tradição grega e pré-cristã européia, faz-se referência a quatro e não a cincos elementos fundamentais que constituem o Universo.  O elemento água também se faz presente: agua, terra, fogo e ar.

Enfim, seja no Cosmos ou Microcosmos, ou como fonte e manutenção da vida, a água é parte constituinte da experiência do sagrado, e representa a substância que permite o renascimento da vida espiritual para os devotos em diferentes tradições religiosas.

Segundo o biólogo Gregory Bateson, espírito e natureza devem ser indissociáveis e representam a verdadeira e mais profunda condição da consciência humana ao manter-se integrada com a mente planetária, experiência esta fraturada pela modernidade.

Vladimir Luís de Oliveira

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