Quando criança, brincávamos de “Reizinho mandou”, lembra? A pessoa escolhida como rei gritava uma ordem, por exemplo, ‘dar uma volta no quarteirão’ e os demais corriam fanáticos para cumprir a tarefa o mais rápido possível e voltar aos pés do tal reizinho. Há quantos séculos este e outros jogos tem ensinado gerações a ouvir e obedecer sem questionar? Não me surpreenderá se alguém disser que os filhos de imperadores da história se divertiam com jogos como este.  

A influência de uma educação baseada em obediência sem o desenvolvimento do pensamento crítico nos trouxe ao século de maior colapso entre massa e lideranças – sejam elas política ou religiosa; onde diversos pilares de poder e dominação estão desabando. Esses pilares que foram ouvidos por milhares de pessoas, seguidos, honrados, homenageados, tratados como deuses de carne e osso, agora, se encontram ruindo pouco a pouco. É o colapso da autoridade imposta.

É nítido que está em gestação uma nova sociedade. Um novo modelo de convivência social. Extrapolaram os limites da comunicação e do acesso à informação. Começam a nascer, por exemplo, novos métodos de empreendedorismo, novos formatos de campanhas políticas e mais aguardado, a expansão da espiritualidade sem religião.

Tudo o que foi severamente imposto às gerações anteriores começa a cair por terra. Vivemos escândalo atrás de escândalo e o cumprimento de uma profecia: nada ficará oculto. No meio político, já estamos calejados de assistir a queda de partidos e lideranças que deveriam representar o povo, pois, mais cedo ou mais tarde sabemos que algo virá a tona e teremos uma nova decepção, de caráter. Por tanta frustração, passa-se a rejeitar o sistema. Evitam contato com candidatos, assistem o horário político para dar risada e a cada ano mais pessoas têm se negado o direito ao voto. “Tanto faz quem entrar, vai roubar do mesmo jeito”- é o que mais ouço entre amigos, família e demais eleitores. O estado democrático de direito, não é mais democrático a muito tempo. Triste reconhecer isso? Concordo. Quantos já levantaram a bandeira da democracia e ao ocupar uma cadeira fragiliza o estado ou sequer sabe o que estava dizendo? Como crer no próximo?

As abstenções não param de crescer. Mais de 20% da população não se dá ao trabalho de sair de casa, muito menos pensar em quem votaria. São 31 milhões de pessoas que não se sentem representadas pelo sistema e, literalmente, abriram mão dele. Isso é um grito em alto e bom som para que seja repensado a participação popular. Na outra ponta da balança, há quem não desistiu de desafiar o tradicional. As candidaturas coletivas, partidária ou suprapartidária, seguem em forte crescimento e caminham ganhando adeptos a ideia, onde, se eleito, o mandato é do coletivo e não mais de uma “família” ou instituição. Este formato, de certa maneira, cria uma barreira resistente contra a corrupção. Quando você é um político que tem o poder para tomar decisões sozinho, se torna presa fácil no covil dos lobos (apesar de conhecer alguns que estão maravilhosamente resistindo a qualquer proposta e fazendo seu papel de representante do povo de forma honesta e justa), agora, se a decisão da pessoa eleita tem que passar por 5 ou 10 pessoas diferentes da sociedade civil, certamente teremos escolhas mais bem niveladas.

O desgaste das siglas partidárias segue em disparada e em troca ganham a queda constante na quantidade de filiados. Muitos passaram a enxergar que quem “manda” é o cara lá de cima e que pouco há da essência ideológica ou cumprimento de estatuto qual você foi seduzido. O projeto de poder e manutenção dos cargos é o que importa. Não à toa, 40% dos eleitos no Congresso Nacional em 2018 são investigados ou réus em algum processo. Se antes a sustentação das instituições políticas se dava ao ter uma base popular digna e forte, hoje isso pouco importa para quem está ditando as regras a 40 anos. Nas maiores e mais antigas siglas, nem mesmo o núcleo municipal possui 100% do poder para decidir seus candidatos e aporte financeiro do fundo partidário. É verticalizado e aceita quem quiser, pouco se consegue negociar.

De 2010 a 2018, o número de jovens filiados entre 16 e 24 anos reduziu 44% somando 14 legendas. São 168.634 a menos atuando dentro dos partidos, de acordo com o infográfico do Estadão. Nós (me incluo ainda como juventude) não acreditamos na participação partidária como veículo de transformação política. Espaços burocráticos e hierarquizados não combinam com o futuro. Caminhamos para uma atuação coletiva, onde todos têm voz e vez. Onde a minha opinião é levada em consideração.

Nos espaços religiosos segue-se a mesma queda na captação de adeptos. Escândalos de todos os lados abriram a caixa de pandora dos líderes e gurus espirituais. Desde a denominação católica ao zen budismo, ninguém tem passado despercebido. O caso João de Deus, onde mais de 300 mulheres já trouxeram a tona a pequenez humana e sádica de um dos homens que, até então, fora tratado como ser iluminado e santo; dispara o alerta do que realmente procuramos. O que procuramos?

Milhares de pessoas tem abandonado religiões que pararam no tempo, ou enxergaram que aquela instituição não é tão honesta quanto imaginava. Algumas seguem a procura do “templo ideal” para exercer a fé, outras simplesmente desistiram. Descobrimos que ao desacreditar na instituição não necessariamente abrimos mão de crenças e valores, pois não se trata de excluir o sagrado da vida, mas trata-se de colocar em sua própria mão a responsabilidade de ser um indivíduo melhor, sem mais esperar ser conduzido por “alguém” para chamar de líder ou mestre.

Por séculos ficamos em busca de pessoas ‘chave’ para seguir fielmente, acreditando de forma ilusória que alguém, tão humano quanto eu, poderia ter todas as respostas e ser mais sábio, no final, uma parcela destes seguidores queriam apenas ter a quem culpar se algo desse errado. Por milênios, foi muito mais fácil culpar uma divindade física ou imaterial por nossas sombras e com isso em nome de “salvadores da pátria” muitos mataram, e morreram.  

Dado este cenário, e observando no fundo de nossa agonia, seguimos rumo à desconstrução de uma história baseada em “reizinhos mandando” para um projeto de unidade, centrado no indivíduo que se relaciona e pensa o coletivo, que se empodera para discernir – a partir do olhar macro – o seu microcosmo. O que faz bem é o que faz sentido permanecer em mim. O que faz bem é o que eu posso compartilhar com o meio e me tornar o próprio agente da mudança que almejo, compreendendo a diferença entre admiração e idolatria; reconhecimento e fanatismo; poder e submissão; opinião e constatação; eu e o outro.

Estamos no olho do furacão e continuaremos nele por alguns anos. Estamos na separação do joio e do trigo, onde escolhe – se insistir na perpetuação de um formato insustentável de sociedade ou busca – se  empoderar do poder interno através do autoconhecimento e responsabilidade social sobre as próprias escolhas. No entanto, somente um desses ouvirá a outra parte e tentará equalizar as necessidades.

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Hanna Pereira

Hanna Pereira é Mobilizadora social, Consultora e assessora de candidaturas jovens, terapeuta holística, palestrante e Idealizadora do movimento Elas Na Política e do Observatório Caiçara da Cidadania. Tem 28 anos e é de São Vicente, SP.

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