Por: Raíssa Melo

Moradora da Favela do Parolim caminhando até à favela. Crédito: Raíssa Melo / ANF

Curitiba é conhecida nacionalmente e até internacionalmente como “república de Curitiba”, “cidade modelo”, “cidade sustentável”, “capital europeia no Brasil”, “cidade sorriso”, todos esses títulos causam a falsa sensação de que na capital paranaense não há desigualdade social, violência urbana, fome e miséria. Mas se engana quem acredita no forte trabalho de marketing em tornar Curitiba uma vitrine de município bem sucedido. Basta dar uma volta pela cidade para se deparar com problemas sociais graves e perceber o abismo entre a cidade modelo e suas favelas.

De acordo com o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), em 2014, Curitiba possui 209 favelas e 44.713 domicílios, totalizando uma população com cerca de 170 mil pessoas. E por mais que a prefeitura aliada à imprensa tente esconder esses bairros e famílias não há mais como silenciar essa população. Se antes os bairros mais estruturados, comércio, população de classe média insistiam em não ver o outro lado da cidade, hoje enxergam, cotidianamente, com um olhar distante, preconceituoso e principalmente assustado. Muito maior que o abismo físico, estrutural e social entre favelas e asfalto, o medo e estigma são as principais barreiras enfrentadas pela população favelada para adentrar e conviver nos espaços destinados à classe média curitibana. Se antes as favelas eram vistas como espaço de problemas sanitários, atraso cultural e desordem urbana e social, hoje esses espaços são associados ao crime violento e, por isso, se tornam o maior problema da cidade.

A manutenção do sentimento de medo acontece principalmente por dois motivos: a exclusão dos moradores das favelas e seus territórios na malha urbana da cidade e a cobertura midiática sobre esses espaços. Cada vez mais a mídia jornalística opta por mostrar exclusivamente a violência e, assim, gerar mais clamor da sociedade para que o Estado tome medidas violentas por meio da Segurança Pública, ou seja, forças policiais.

De 2011 até 2017, houve 147 operações de contenção e exploração de territórios identificados como favelas. Essas operações foram realizadas pela Polícia Militar em Curitiba e região metropolitana. Esses dados são da própria Secretaria de Estado da Segurança e se referem apenas às operações que duraram mais de cinco dias. A Secretaria não contabilizou o sucesso ou fracasso das operações e nem os números das mortes de pessoas civis e policiais, mas o Observatório da Imprensa, em 2017, contabilizou 789 notícias em jornais televisivos regionais sobre mortes em favelas no período de dois anos.

Diante dessa realidade, precisamos fortalecer a resistência da favela e dar visibilidade a verdadeira realidade de seus moradores, dando voz e mostrando que a favela está longe de ser o berço do crime e origem de mazelas. Favela é, sim, moradia de mão-de-obra barata, território esquecido pelo Estado. Ela é, também, muito mais que isso. É resistência, luta, cultura, força e, principalmente, lar de pessoas que merecem respeito e dignidade.

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