Mundo

A arte tem potencial transformador, mas nem sempre é transformadora!

Por Leonarda Glück

A arte tem potencial transformador, mas nem sempre é transformadora. Digo isso por conta das relações comerciais seculares existentes entre arte e establishment, em que a arte opera unicamente como o carro forte dos bancos, das instituições, dos conglomerados de marketing e publicidade e das empresas em geral pelas quais é patrocinada. Isso é um grande erro conceitual cometido pela espécie humana desde tempos imemoriais, é o erro próprio da necessidade de subsistência e sobrevivência de artistas em determinadas condições ao longo dos tempos. Quando a relação é outra, eu poderia dizer que o potencial transformador da arte é imenso e as mudanças, sejam elas comportamentais, profissionais, afetivas e sociais me parecem mais factíveis. Esse potencial tem a ver com iluminar a mesa da percepção, ativar os sistemas reflexivos do humano, jogar luz sobre onde antes era sombra e articular a virada de jogo. É claro que isso só funciona para quem está aberto, para quem está interessado naquilo que a sensibilidade do outro tem a dizer, para quem está interessado em repensar a caminhada, e, como tal não é coisa fácil, por isso tantos tombam no meio do caminho.

Sobre a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, o que eu poderia dizer é que eu penso que em momento nenhum isso deveria ser papel exclusivo da arte, embora o seja algumas vezes. É claro que a arte é um campo emancipado e visionário que nos possibilita vislumbrar algumas coisas antes mesmo que elas aconteçam, e aí reside sua maior importância, em minha opinião, mas há áreas em que essa premissa deveria ser mais aplicada. No Brasil isso é mais complicado ainda, já que se trata de um país que não demonstra o mínimo interesse em arte e cultura, de modo geral. A maior cultura por aqui é a da ladroagem, da mamata e da negociata. Os artistas, que todo o mundo ama quando vê no teatro, nos shows, nos livros, na televisão e no cinema, são os primeiros que “a união” ataca quando a economia não vai bem. É sintomático e preocupante. Há hipocrisia e safadeza generalizadas em nosso povo e em nossos eleitos e a arte não escapa a essa terrível lógica. Mas tem uma coisa que muitos de nós brasileiros estão acostumados e em que somos mestres, e a isso denominamos resistência. Muitos de nós são fortes e resistentes o suficiente para aguentar o tranco e segurar a barra, tenha ela o peso que tiver, e eu posso te dizer, de cabeça erguida, que eu estou entre esses.

Leonarda Glück é artista (dramaturga, atriz e diretora teatral) e trabalha com fusão entre linguagens artísticas, tais como teatro, dança, performance art, literatura, música, vídeo, artes visuais e cibernéticas, bem como com suas estreitas relações com o corpo e suas ressonâncias afetivas e é diretora teatral graduada pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP). É artista residente e fundadora do Espaço Cultural Casa Selvática desde 2012, espaço este gerido pela jovem produtora curitibana Selvática Ações Artísticas. Alguns de seus trabalhos mais recentes são, em teatro, Dalton Cabaré, espetáculo realizado pelo Espaço Cênico dentro do evento Curitiba Mostra, no Festival de Curitiba 2016, através do Edital Mecenato Subsidiado/2012 da Fundação Cultural de Curitiba e Iracema 236ml – O Retorno da Grande Nação Tabajara, espetáculo laureado com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz/2014, apresentado nas cidades de Curitiba, Rio de Janeiro, Fortaleza, São Paulo e Juazeiro do Norte, e em dança contemporânea/performance, Sim, Somos Bizarras, projeto contemplado pelo Programa Rumos Itaú Cultural 2013 – 2014, realizado nas cidades de Natal e Porto Alegre, e La Lucha, laureado com o Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna/2013, espetáculo que estreou em novembro de 2014 na cidade de Montevidéu, Uruguai.

Em julho de 2016 a artista lançou, em parceria com a jovem Editora Dybbuk, seu primeiro livro de dramaturgia, intitulado “A Perfodrama de Leonarda Glück – Literaturas Dramáticas de Uma Mulher (Trans) de Teatro”, contendo seis peças para teatro, além de um ensaio fotográfico exclusivo.

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