A arte e a espiritualidade no tantra

Por Vladimir Oliveira, Professor e Especialista em Yoga, Curitiba Paraná.

Nada mais controverso do que conversar sobre o tantra. Talvez esta tenha sido uma das contribuições mais interessantes e contraditórias do oriente ao ocidente. Os primeiros contatos com esta prática espiritual somente chegaram na Europa no séc. XIX pelo então juizinglês  da Corte em CacutáSir John Woodroffe, que publicou um famoso livrochamdo “o poder serpentino”.

O fato é que existem varias linhas muito diferentes do tantra: jainista, budista, sikh  e hindu em várias vertentes: shaktas (envolve o rito do sagrado feminino), shivaistas (deus da destruição), vaishinavas (seguidores de Vishnu, preservador do Universo e que reencarnou em vários avatares), Ganopatas (adoradores de Ganesha– deus elefante) E Hanupatas (adoradores do deus macacoHanuman).

Independe dos mitos ou ritos de cada uma destas vertentes, todos tem algo em comum: a prática espiritual ou sádhana. Esta não nega a experiência  do mundo dos sentidos, pois é através das sensações corporais que alcançamos a realização.

Tantra é extremamente envolto em práticas de magias, amuletos, diagramas, imagens e mantras. É extremamente colorido e representa o corpo espiritual através dos chakras ou rodas de energia. Toda esta forma colorida em representar as artes e as técnicas profundas de meditação e de produção de estados modificados de consciência logo atraiu um grande numero de seguidores.

A origem precisa do Tantra é de difícil afirmação, mas historiadores em geral a colocam em torno do séc.V d.C. Segundo Feuerstein, ele foi um movimento em meio a crise do brahmanismopromovido pelas castas inferiores da Índia(pescadores, tecelões, comerciantes, lavadeiras) que estavam excluídos na espiritualidade hindu tradicional que excluía o povo da vivência espiritual. O tantra nasceu desta reação as castas religiosas e aos conceitos abstratos da filosofia Vedanta. Por isso foi uma religiosidade prática diretamente conectada ao Yoga.

Diferentemente da moral ortodoxa, o tantrismo sugeria mesmo em romper com as normas vigentes para alcançar a espiritualidade máxima. Passou a ser comum andar nus como prática de desapego, ou mesmo em alguns casos introduzir a prática da sexualidade sagrada, ingerir vinho e comer peixe.

 Embora estes ritos fossem comuns apenas para uns poucos grupos que executavam práticas de mão esquerda, isto em si, já evidenciava quão revolucionário e diverso era o tantra das representações religiosas tradicionais.

Para facilitar a iniciação ao Tantra tornou-se comum os usos de imagens coloridas de deuses, animais sagrados e a anatomia sutil e exotérica por meio de charkras coloridos (pontos de energia em forma de rodas) e os canais de energia. O objetivo do tantra estaria em despertar o “poder da serpente”, situado na base da coluna vertebral, ou região sexual e, conduzir esta energia ao topo da cabeça.

Figuras do sec XVIII

O rito da sexualidade sagrada era representado nas artes mesmo nos grupos que praticavam a retenção da energia sexual  por adotarem obrahmacharia.   A relação espiritual almejava equilibrar a energia feminina e masculina para se atingir a experiencia do divino. Neste caso a energia sexual retida garantia a ascensão da energia kundalini.

Nesta gravura há uma cena em que A deusa da Fúria Kali destrói um exército e ao final em êxtase dança sobre o corpo de Shiva que se apresenta com o lingam ereto.  O coito sagrado era uma relação não apenas mundana, mas sagrada em que mulheres e homens convertiam-se em deuses.

Na cultura religiosa budista o intercurso sexual aprece em diversas xilogravuras mostrando Buda mantendo relações sexuais com Tara, deidade feminina no budismo tibetano. O objetivo era o mesmo: alcançar a iluminação e a consciência cósmica por meio da sexualidade.

 

 

Toda esta abertura entre o sagrado e a espiritualidade acabou sendo fortemente reprimida por uma conjunção de fatores históricos: a retomada do poder por parte das castas bramânicas, as invasões islâmicas (700 a 1800 dC) e finalmente a ocupação britânica e a cultura repressiva da Era Vitoriana no séc. XIX.

Esta liberdade das artes, da sexualidade e dos ritos mágicos também exerceu influência nas relações com a natureza e o entendimento de uma mentalidade suave em relação a mãe terra. Os ritos do tantra incorporaram o princípio do ahimsa ou amor e paz condicional aos animais e a natureza, considerada a manifestação de Prakriti ou deusa da criação do mundo material.

Os Pujas tântricos substituíram os sacrifícios de animais por ritos pacíficos com flores, frutos e água. Pode-se afirmar que ao reforçar o imaginário e os mitos femininos,a violência das castas guerreiras e das castas sacerdotais patriarcais perderam sua força na representação do sagrado.

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