Por Eduardo de Campos Garcia

Por volta de 1938, os estúdios da Disney ofereceram ao mundo o longa metragem “Branca de Neve e os Sete Anões”. Entre tantas questões que estão implícitas de cunho patriarcal e machista é possível citar a beleza da personagem principal, a Madrasta, tanto quanto a sua ira. Frente ao espelho – aquele que revela o desejo da própria alma – a madrasta percebe que Branca de Neve ao se tornar uma mulher (ainda virgem), é dotada de beleza incomparável. Para o patriarcado, a virgindade tem gosto de poder. Não obstante, o jeito doce e meigo de Branca de Neve a condena a morte simbólica. No território do fascismo, aquele que ofusca os desejos do mais forte deve pagar com a vida.

Embora não pareça, Branca de Neve é um filme que tem a intenção de educar os corpos e tornar essencial aquilo que foi pensado no âmbito do totalitarismo: todos iguais, mas uns mais iguais que os outros. Em contrapartida, a madrasta é a própria mulher incorrigível cuja psicanálise prescreve como histérica – patologia da alma que afligia exclusivamente as mulheres e as condenavam a lobotomia. Assim, enquanto conceito, nasce e germina a ideia da mulher como única culpada pela passividade estrema e/ou a maldade patológica. O homem, o másculo, o príncipe, é sempre aquele que busca orientar, firmar os destinos, amparar o frágil.

Não obstante, Simone de Beauvoir (1908-1986), mal interpretada por algumas pessoas, lançou sobre a sociedade ocidental a provocação sobre o valor do conceito. Entre possíveis enganos está no fulcro da interpretação do seu pensamento a frase “ninguém nasce homem e ninguém nasce mulher; ser homem e ser mulher se aprende”. Talvez por isso Márcia Tiburi (2013-Saia Justa GNT), ao analisar a história da Branca de Neve disse: cada um de nós; homem, mulher ou além traz dentro de si uma Branca de Neve. Por isso, a personagem que nos habita, mora na casca denominada pele e não no gênero.

Contudo, muitos atribuem o dito de Beauvoir a questão do gênero e, em função disso, discussões intermináveis se desdobram sobre a realidade do sexo, da genitália, da orientação sexual e da identidade. No fundo, o que está em jogo, no pensamento de Beauvoir, é o poder classificatório e hierárquico do conceito, e não o gênero em si. Nesse cenário, nascemos coisa, substância abstrata.

Não foi a toa que pensadores do século XIX colocaram o ser no centro do conhecimento. Nascendo coisa, todo o resto que compõe o corpo, cada cultura com suas intenções sócio políticas, se encarrega de tornar verdadeiro. Partindo dessa concepção, a mulher, enquanto conceito que se aplica, sofre as variações do patriarcado que a violenta, as vezes corporalmente, outras simbolicamente.

Ser mulher, numa sociedade patriarcal, não se resume a condição de macho ou fêmea, ter vagina ou pênis, mas se expandi segundo os critérios de educação sobre o corpo físico e metafísico do ser. Quando se pensa na mulher, no Brasil – por exemplo – toda uma gama de representações entra em ação: maternidade, assexualidade/sexualidade, modos de ser, modos de ornamentar o corpo, direito ao corpo, desapropriação do direito a escolhas pessoais (aborto, por exemplo), prazer, liderança, responsabilidades, linguagem e história, TPM. Entre as invenções, o cheiro doce e meigo, aquele que se iguala a maternidade por relacionar-se ao bebê; o perfume como meio de educação dos sentidos convenceu não somente que a mulher é e deve ser doce e amável como permitiu que o corpo feminino exalasse o cheiro doce do feminino. O perfume, também é dispositivo que marca e delimita a prescrição do que significa ser mulher: o cheiro identifica.

Mulher é um conceito prescritivo que impõe ao corpo restrições e limitações. De fato, os conceitos se constroem. Se constroem a partir das relações de poder. Apesar disso, o núcleo do poder está na articulação da palavra e o modo como os discursos a promovem: de modo positivo ou de modo negativo, de modo ativo ou de modo passivo. No território político, cheiro também é poder. Cheiro é discurso semiótico.

Apesar disso, discurso, como pensado por Michel Foucault, tem a função, primeira, de constituir o sujeito. Cada nome é, por si só, a ponta de um Ice Berg discursivo sendo ele sustentado por todo um resto obscuro. O sujeito, aquele que está sujeitado ao discurso de poder vive e opera na camada mais superficial do Ice Berg. No fundo, bem lá no fundo, a verdade sobre a mulher está nas relações mais obscuras do machismo cristão e monofônico, da teologia patriarcal e da estética transformada e banalizada em cosmética, na morte simbólica da Terra como Deusa feminina que tudo gera, da transformação de Lilith em demônio.

Muito embora o feminismo tenha ganhado força, sua necessidade já denuncia a brutalidade histórica marcada pela concepção de um Deus gerativo e macho. Repensando as invenções míticas, aprender a ser mulher ou homem não deveria ser uma necessidade política para provocar relações antitéticas, mas princípio de igualdade porque o ser é, antes de tudo, coisa.

A vida e a escola deveriam pensar e repensar a condição do ser, esse que antes do gênero, do sexo, da rotina se concebe na categoria ética. A identidade do feminino e do masculino se impõe como absolutas nas mentes envelhecidas e, entre suas características, está a indubitável necessidade das brutais afirmações machistas. O poder é desigual e é possível pensar numa “Guerra Fria” – por analogia – entre macho e fêmea.

De fato, o conceito do que significa ser “mulher” é mais que simbólico; se materializa porque todo conceito é aquilo que constituí, prescreve, determina, marca. Ainda que pareça desnecessário ao olhar do patriarcado, algumas mulheres buscam uma contracultura, necessária e radical que faça a massa entender que não se trata de biótipo, mas de direito igualitário na medida que os corpos se organizam socialmente segundo a ordem do discurso que lhe cabe. Afinal, se “mulher” representa toda uma forma de se colocar no mundo, todo aquele que não for heterossexual, cristão, descendente de branco europeu, ouvinte, no território do poder será “mulher”. O conceito não está relacionado somente com genitália. O conceito indica o lócus da sobrevivência e por isso, tardiamente é preciso brochar o falo para o império das reginas terem poder. Portanto, empoderamento feminino e abaixo aos príncipes patriarcais e a Branca de Neve. Que possa reinar no intelecto o reino da equidade! Que toda pele exale o cheiro da igualdade.

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